sábado, 14 de março de 2020

Santa Luísa de Marillac, Viúva, Cofundadora – 15 de março

     
     No século XVII já ia adiantada a decadência da Idade Média – época que tão admiráveis frutos produziu outrora para a Cristandade. As guerras de religião na França haviam tornado o país continuamente devastado, o campo sem cultivo, as fortunas arruinadas, um sem-número de famintos e miseráveis refugiavam-se em Paris, aumentando de modo assustador a população da capital.
     “Os mendigos formavam exércitos que se apresentavam em grupos compactos, arma ao braço e blasfêmia nos lábios, diante das igrejas, exigindo imperiosamente a esmola” (1). O que podia fazer o Poder Público ante tão grande mal? Muito pouca e durável coisa.
     Foi quando a Providência suscitou esse homem de estatura verdadeiramente profética, São Vicente de Paulo, que — secundado por almas exponenciais e de grande santidade, como Santa Luísa de Marillac — com suas obras de assistência e misericórdia começou a modificar o lúgubre panorama.
O encontro de dois santos
     Luísa era filha de Luís de Marillac, o Senhor de Ferrières, um nobre francês. Ela nunca conheceu sua mãe que morreu logo após seu nascimento. A infância e a adolescência de Luísa de Marillac foram uma sucessão de sofrimentos morais e espirituais. Órfã de pai e mãe, foi educada pelo tio, Chanceler do Reino de França. Homem de grande piedade, fê-la progredir nas letras, artes e virtude. Entretanto, de consciência sumamente delicada, Luísa sofria da terrível doença espiritual dos escrúpulos.
     Aos 22 anos, sentiu o apelo para a vida religiosa, mas cedeu ao desejo do tio e ao conselho do confessor, casando-se com Antônio Le Gras, oficial a serviço da Rainha. Antônio, porém, trazia consigo os sintomas da doença que o levaria ao túmulo 12 anos depois.
   Viúva aos 34 anos, rica e piedosa, Luísa dedicou-se inteiramente aos pobres. Faltava-lhe, porém um diretor que a livrasse dos malditos escrúpulos, permitindo-lhe enfim voar para os altos horizontes a que se sentia chamada. São Francisco de Sales tentou essa tarefa, mas os escrúpulos prosseguiram.
     Dois anos após a morte do Prelado, Luísa conheceu o Pe. Vicente de Paulo. No primeiro encontro, a impressão mútua dos dois santos foi negativa. A bela e elevada educação aristocrática de Luísa de Marillac levava-a a ver no Pe. Vicente um camponês um tanto rústico e tristonho. O sacerdote, por sua vez, não se interessou por aquela grande dama. Ocupado, como vivia, com os pobres, não tinha em vista dirigir espiritualmente pessoas da alta sociedade. Essa primeira impressão mútua, contrastante, desvaneceu-se aos poucos quando um foi descobrindo na alma do outro os enormes tesouros que a graça ali depositara. 
    Formou-se então aquela sociedade espiritual que frutificaria depois em tantos benefícios para a Igreja e a sociedade. E, onde São Francisco de Sales nada conseguira, São Vicente de Paulo triunfou, curando a jovem viúva de seus escrúpulos e tornando-a sua maior colaboradora nas obras de misericórdia que empreendia, conduzindo-a ademais aos páramos da santidade.
     Santa Luísa, por sua vez, colocou-se inteiramente em suas mãos, fundando com ele as Confrarias da Caridade, a Congregação das Irmãs da Caridade (de São Vicente de Paulo), tornando-se sua grande auxiliar até falecer em 15 de março de 1660, seis meses antes de seu diretor.
A pressa da dirigida, a lentidão do diretor
     Apreciando sua disponibilidade, seu juízo reto e seguro, seu sentido de organização e intuição feminina, o Pe. Vicente faz dela sua principal colaboradora e confia-lhe a animação das Confrarias da Caridade. Ele havia visitado as Confrarias da Caridade do interior, e recrutara as jovens mais virtuosas e aptas para as destinar às Confrarias de Paris.
     Chegando às aldeias, Luísa se informava das pessoas que pertenciam à Confraria, reunia as senhoras da Caridade e dirigia-lhes a palavra. Observava como funcionava a Confraria, o estado financeiro das coisas, o papel de cada um dos membros, informava-se sobre a vida espiritual, visitava pessoalmente os pobres, interessava-se pela instrução das (dos) jovens. Terminada a visita, ela reunia as responsáveis, dava orientação segura e enviava ao Pe. Vicente um relatório minucioso, com sua própria apreciação.
     No trabalho das Confrarias, o Pe. Vicente intervém quando necessário, mas deixa toda a liberdade de ação a sua colaboradora e recorre muitas vezes ao seu espírito de organização
     Com o tempo, as necessidades aumentam, as consequências da guerra se fazem sentir e Vicente e Luísa se interrogam sobre o futuro do serviço dos pobres. Apresenta-se uma camponesa: Margarida Naseau (seria beatificada e é considerada a 1ª Filha da Caridade) e com ela outras camponesas que seguem o seu exemplo de dedicar a vida a serviço dos pobres. As jovens que se reúnem ao redor de Luísa de Marillac são camponesas rudes, que não têm instrução nem mesmo elementar, a maioria não sabe ler. Luísa dá formação espiritual às jovens: ensina a ler, a escrever, a costurar, como cuidar dos doentes, a fazer chás caseiros, como ensinar o catecismo. Juntas refletem e enfrentam as dificuldades que aparecem nos serviços, os mais variados.
A Santa como jovem religiosa
     Crescendo o número de jovens, São Vicente pensou em prepará-las para uma espécie de noviciado na senhorial casa de Luísa de Marillac. Esta via assim concretizar-se um sonho que tivera muitos anos antes, quando Deus lhe mostrara muitas jovens que, dirigidas por ela, entregavam-se ao atendimento dos pobres. Por isso, queria apressar as coisas, formando logo uma sociedade religiosa.
     Como diz um dos biógrafos de São Vicente de Paulo, “as pressas de Santa Luísa não entravam na psicologia do Santo. Entre ambos entabulou-se por essa época a batalha epistolar da lentidão contra a pressa”. São Vicente tentava refreá-la, mas sem esfriar o bom impulso que a propulsionava para a frente: “Deixe Deus obrar, e fie-se nEle… e verá cumprir-se os desejos de seu coração” (2).
O anjo da dirigida apressa o do diretor
     Pressionado por Santa Luísa, São Vicente escreveu-lhe dizendo que, com frequência, o “bom anjo” dela havia falado com o seu, sugerindo-lhe a obra a ser fundada. Por isso, falariam sobre ela o mais rápido possível.
     A pressa de Santa Luísa acelerou os planos de São Vicente. E, finalmente, encontraram uma fórmula: suas filhas não seriam religiosas. Ao compor, com Santa Luísa, as regras das Filhas da Caridade, São Vicente tirou delas todas as palavras que pudessem dar ideia de vida religiosa. Não teriam clausura, convento, nem aparência religiosa. Vestir-se-iam como as camponesas que aguardavam a fundação do Instituto e serviam nas Caridades.
     Assim, no dia 29 de novembro de 1633, fundou-se o Instituto das Filhas da Caridade, cujo espírito deveria ser de “simplicidade, caridade, humildade, mortificação, amor ao trabalho… obediência, pobreza e castidade” (3).
     Como os votos são algo da essência da vida religiosa – embora não bastem os votos para caracterizá-la — São Vicente não tinha a intenção de que suas filhas os fizessem. Convenceu-se, porém, ao ler, em 1640, uma fórmula dos votos pronunciados por uma Ordem hospitalária italiana concebidos nestes termos: “Faço voto e prometo a Deus guardar toda minha vida a pobreza, a castidade e a obediência, e servir a nossos senhores, os pobres”. Levou-os adiante, mas aos poucos. Só dois anos depois permitiu a Santa Luísa de Marillac e a outras quatro Irmãs que os pronunciassem. Depois foi sendo permitido às que tivessem mais de cinco anos na companhia que também os fizessem.
Prudente sagacidade feminina vence a humildade do Santo 
     Houve uma santa polêmica entre os dois fundadores sobre a quem deveriam ficar sujeitas as Irmãs. O Santo queria pô-las não sob sua direção, mas submetê-las aos Prelados locais. Santa Luísa discordava e com razão. E seus argumentos tinham peso: alegava os inconvenientes que adviriam à instituição se os Bispos onde se estabelecessem pusessem obstáculos, e a perda da unidade de espírito que isso acarretaria.
     Desta vez, Luísa de Marillac, com astúcia cheia de bom espírito, fez intervir no assunto a rainha, Ana d’Áustria, obtendo que ela escrevesse a Roma para pedir ao Papa que nomeasse São Vicente de Paulo e seus sucessores como superiores do Instituto. Assim, desta vez, a prudente sagacidade de Santa Luísa levou a melhor sobre a humildade de São Vicente de Paulo…
Afastada a tentação de vanglória
     A fama dessa grande dama, apóstola da caridade, difundiu-se por vilas e cidades, tornando-se sua entrada e saída em muitas delas um verdadeiro triunfo. Em Beauvais, por exemplo, não podia ter sido maior: “Mesmo os homens, desejosos de escutá-la, entravam furtivamente na casa onde falava às senhoras, esgueiravam-se até perto da sala da conferência, colavam os ouvidos nas paredes de tabique, e se retiravam maravilhados de tanta prudência e sabedoria. O povo de Beauvais despediu-se dela perseguindo-a com vivas e aplausos até os arredores da cidade. A multidão, rodeando sua carruagem, estorvava sua marcha”.
     Um milagre veio confirmar na fé essa gente simples daquela época em que grandeza de alma e virtude ainda encantavam. Com a multidão rodeando a carruagem, de repente uma menina caiu sob suas rodas em movimento. A um grito de terror dos presentes, Santa Luísa ergueu os olhos ao céu numa prece. Passada a carruagem, a meninazinha levantou-se por si própria, sem um arranhão.
     Esses triunfos, se de um lado alegravam o vigilante São Vicente, de outro deixavam-no preocupado em manter a humildade de sua dirigida, pois não há maior veneno para as obras de Deus do que a vanglória. A isso, só a alma solidamente firmada na virtude pode resistir. Nessas ocasiões, ele aconselhava Luísa de Marillac: “Una vosso espírito às burlas, desprezos e maus tratos sofridos pelo Filho de Deus… Na verdade, senhora, uma alma verdadeiramente humilde se humilha tanto nas honras quanto nos desprezos, e obra como a abelha, que fabrica seu mel tanto do orvalho que cai sobre o absinto quanto do que cai sobre a rosa” (4).
Palavras do mestre recolhidas pela discípula
     Semanalmente o Fundador reunia as Filhas da Caridade em familiares reuniões nas quais ele lhes fazia perguntas sobre as virtudes cristãs, os votos e as Santas Regras. Ele comentava as respostas confirmando, esclarecendo ou corrigindo algum ponto.  Sua palavra “cálida, viva, simples, familiar, convincente, penetrante, instrutiva e prática” se dirigia “à razão, ao coração e à vontade daquelas 12, 50, 80 e até 100 irmãs que acudiam todas as semanas das paróquias de Paris e subúrbios para receber as lições do santo Fundador” (5).
     Santa Luísa de Marillac, percebendo o tesouro que aquelas explicitações encerravam, começou, com a ajuda de outras irmãs, a anotá-las com a maior fidelidade. Tais notas foram se difundindo entre as Filhas da Caridade por toda a França, sendo as primeiras coleções impressas em 1825. Graças, portanto, ao tirocínio de Santa Luísa de Marillac, possuímos essas regras de sabedoria e bom senso emanadas de um santo, com toda a vivacidade e até o pitoresco com que as pronunciou São Vicente de Paulo.
     O instituto religioso das Filhas da Caridade recebeu aprovação oficial em 1655.
     Santa Luísa, que enfrentou problemas de saúde por toda sua vida, liderou as Filhas da Caridade até sua morte em 15 de março de 1660, apenas seis meses antes da morte de seu amado mentor, São Vicente de Paulo. Ela tinha 68 anos, e deixou mais de quarenta casas de caridade em toda a França. A ordem espalhou-se pelo mundo, suas filhas espirituais eram universalmente reconhecidas por seu cocar branco "alado" (que infelizmente não usam mais...)
     Foi canonizada em 1934 e proclamada pelo Papa João XXIII, a Patrona das Obras Sociais. O dia de sua festa é 15 de março.

Notas:
1– San Vicente de Paúl – Biografia y Selección de Escritos, Pes. José Herrera, C.M. e Veremundo Pardeo, C.M., B.A.C., Madrid, 1955, pp. 307 a 310.
2 – Op. cit., pp. 265, 266.  3 – Op. cit., p. 267.  4 – Op. cit., p. 248 5 – Op. cit., p. 6.
Outras obras consultadas:
– John J. Delaney, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980.
– Pe. José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 3a. edição corrigida e aumentada, 1993, tomo I.
– Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives S.A., Zaragoza, 1947, vol. II, Março – Abril.
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Postado neste blog em 15 de março de 2018

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