terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Santa Josefina Bakhita, religiosa – 8 de fevereiro

     
    O nome Bakhita, que significa "afortunada" ou "bem-aventurada", não lhe foi dado ao nascer, mas lhe foi atribuído pelos raptores, pois ela ficara tão abalada ao ser capturada, que esqueceu seu verdadeiro nome.
     Segundo consta de sua autobiografia, ela era originária da aldeia de Olgossa (a pronúncia é “algoz” e em árabe significa “dunas de areia”), em Darfur, Sudão, país africano de predominância islâmica, e que 1869 deve ter sido o ano de seu nascimento. Crescera junto a seus pais, três irmãos e duas irmãs, uma delas gêmea sua. Seu pai possuía terras, plantações e gado, era irmão do chefe da aldeia. Era uma família muito unida.
     Não devemos nos esquecer de que, apesar de possuírem terras, gado, etc., viviam numa aldeia onde as cabanas eram de barro com telhado de palha. Todos nas aldeias estavam sujeitos ao grande perigo que eram os bandos negreiros que raptavam homens, mulheres e crianças para negociar no mercado de escravos.
     No ano de 1874 sua irmã mais velha foi raptada. A dor dilacerou o coração daquela família tão unida e feliz. Em sua biografia ela escreveu: “Lembro-me quanto chorou mamãe e quanto choramos todos”.
     No ano de 1876, com mais ou menos 7 anos de idade, foi raptada e arrancada do seio de sua família. A pequena, tomada de pavor, foi levada brutalmente por dois árabes e foram eles que lhe impuseram o nome de “Bakhita”.
     A pequena escrava, depois de um mês de prisão, foi vendida a um mercador de escravos. Na ânsia de voltar para casa, Bakhita se armou de coragem e tentou fugir. Porém, foi capturada por um pastor e revendida a outro árabe, homem feroz e cruel, que, por sua vez, revendeu-a a outro mercador de escravos. Foi vendida e comprada várias vezes nos mercados de El Obeid e de Cartum. Foi vendida a um general turco, cuja esposa era mulher terrivelmente má; desejou marcar suas escravas e Bakhita estava entre elas. Chamou então uma tatuadora. Eis como a Santa narra o fato:
     "Uma mulher habilidosa nesta arte cruel (tatuagem) veio à casa principal... nossa patroa colocou-se atrás de nós, com o chicote nas mãos. A mulher trazia uma vasilha com farinha branca, uma vasilha com sal e uma navalha. Quando terminou de desenhar com a farinha, a mulher pegou da navalha e começou a fazer cortes seguindo o padrão desenhado. O sal foi aplicado em cada ferida... Meu rosto foi poupado, mas 6 desenhos foram feitos em meus seios, e mais 60 em minha barriga e braços. Pensei que fosse morrer, principalmente quando o sal era aplicado nas feridas... foi por milagre de Deus que não morri. Ele havia me destinado para coisas melhores".
      Em 1882 Bakhita foi finalmente comprada pelo cônsul da Itália no Sudão, Calixto Legnani, que logo lhe deu carta de liberdade.
     No período de escravidão, Bakhita havia sofrido as humilhações, os sofrimentos físicos, psicológicos e morais dos escravos negros. Na casa do cônsul Legnani, Bakhita trabalhava como pessoa livre e isto lhe deu momentos de serenidade. "Desta vez fui realmente afortunada - escreve Bakhita - porque o novo patrão era um homem bom e gostava de mim. Não fui maltratada nem humilhada, algo que me parecia completamente irreal, pude inclusive sentir-me em paz e na tranquilidade”.
     Em 1884 Legnani teve que deixar Cartum, devido a chegada de tropas Mahdis, e retornar à Itália. Bakhita pediu para acompanhá-lo e foi atendida. Com eles partiu também um amigo do Consul, o Sr. Augusto Michieli.
    Chegados a Gênova, o Sr. Legnani, pressionado pelos pedidos da esposa do Sr. Michieli, concordou que Bakhita fosse morar com eles. Assim, ela foi para Zianino de Mirano, Vêneto, onde seria babá da filhinha dos Michieli, Mimina, de quem se tornou amiga.
     Apesar de serem pessoas boas e honestas, os Michieli não eram católicos praticantes. Como sempre, Deus tem seus desígnios e acabou colocando no caminho de Bakhita, o administrador dos Michieli, o Sr. Illuminato Chechini. Illuminato era um homem muito piedoso e logo se preocupou com a formação religiosa de Bakhita e, ao dar um crucifixo a ela, disse em seu coração: “Jesus, eu a confio a Ti”.
     A compra de um hotel em Suakin, no Mar Vermelho, obrigou a esposa do Sr. Michieli, a Sra. Maria Turina, a transferir-se para lá, a fim de ajudar o marido na sua administração. Bakhita e a pequena Mimina foram confiadas às Irmãs Canossianas de Veneza, graças aos conselhos do Sr. Illuminato, que agia novamente, sob a inspiração da graça, a favor da jovem. A Santa diria mais tarde que ela considerava o Sr. Illuminato como seu segundo pai.
     Com as Irmãs Canossianas Bakhita aprendeu a doutrina e conheceu o Deus dos cristãos que desde pequena “sentia no coração, sem saber quem Ele era” e que havia dado a ela forças para suportar a escravidão.
     Ainda na África, a pequena escrava costumava olhar para o céu e, ao avistar a lua e as estrelas, indagava-se: “Quem será o ‘patrão’ de todas essas coisas? E sentia uma vontade imensa de vê-Lo e prestar-lhe homenagem”. Depois de ‘patrões’ tão terríveis que a tiveram como sua propriedade, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão’ totalmente diferente – no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘paron’ a Nosso Senhor Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Este ‘Paron’ morrera por amor a ela e a protegia.
     Ao final de nove meses, a Sra. Maria Turina voltou à Itália para buscar sua filhinha Mimina e aquela que considerava sua escrava, pois retornariam à África. Bakhita já prestes a receber os sacramentos, recusou-se a voltar para a África, apesar do afeto que nutria pela família Michieli e principalmente pela pequena. Sentia em seu coração um desejo inexplicável de abraçar a fé e vivê-la para sempre.
     Apesar dos apelos e até ameaças da Sra. Michieli, a jovem africana não cedeu em sua resolução. Bakhita estava livre, na Itália não havia escravidão. Sua patroa retornou à África com sua filha e Bakhita prosseguiu com sua catequese, feliz, mesmo sabendo que seria a última chance de rever seus familiares na África.
     Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada, fez a 1ª Comunhão e foi crismada pelas mãos do Patriarca de Veneza, Cardeal Agostini, recebendo o nome cristão de Josefina Margarida Bakhita. Ela mesma conta em sua biografia que estando no Instituto conheceu cada dia mais a Deus “que me trouxe até aqui desta forma estranha”. Ela descreveria este dia como o mais feliz de sua vida: sentir-se filha de Deus era-lhe uma emoção inigualável, assim como receber Jesus na Eucaristia era o Céu na Terra. Daquele dia em diante era fácil vê-la beijar a pia batismal e dizer: “Aqui me tornei filha de Deus!
     Bakhita nutria em seu coração o sublime desejo de se tornar religiosa, uma Irmã Canossiana. Em 8 de dezembro de 1896, aos 38 anos de idade, tomou o hábito e ingressou na Congregação das Filhas da Caridade Canossianas, com o nome religioso de Irmã Josefina.
     Ela sonhava com a conversão do povo africano e no dia de sua profissão religiosa rezou: “Ó Senhor, se eu pudesse voar para lá longe, entre a minha gente e proclamar a todos em voz alta a Tua bondade; ó quantas almas eu poderia conquistar para Ti! Entre os primeiros a minha mãe, o meu pai, os meus irmãos, a minha irmã ainda escrava... e todos, todos os pobres negros da África. Faze, ó Jesus, que também eles Te conheçam e Te amem!

     Por mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade dedicou-se à diversas ocupações na Congregação. Transferida para a cidade de Schio, lá permaneceu por 45 anos: foi cozinheira, responsável do guarda-roupas, bordadeira, sacristã e porteira. Nesta última função, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que frequentavam a escola do Instituto. A sua voz amável chegava prazerosa aos pequeninos, reconfortava os pobres e os doentes e encorajava a todos que vinham bater à porta do Instituto.
      A vida exemplar de Irmã Bakhita, a sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, suas palavras de conforto e atitudes carinhosas cativavam e conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio (hoje a cidade tem cerca de 39 mil habitantes) que passou a ser conhecida com o apelido em dialeto vêneto de "Madre Morèta" (Mãe Moreninha).
     As Irmãs a estimavam pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido. “Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!,,,”
     Algo custou a ela muito trabalho: foi escrever a sua autobiografia em 1910, que foi publicada em 1930. Em 1929 as superioras mandaram-na a Veneza para contar a história de sua vida. Após a publicação de suas memórias, se tornou famosa, viajando por toda a Itália dando conferências e coletando donativos para a Congregação.    
     A saúde de Irmã Josefina foi se debilitando; em seus últimos anos teve que se utilizar de uma cadeira de rodas, o que não a impediu de continuar viajando, apesar de todos os incômodos. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: “Como o Patrão quer!”    
     Quando já estava bem doente, dizia: “Vou-me devagarinho para a eternidade... Vou com duas malas: uma contém os meus pecados; a outra, bem mais pesada, contém os méritos infinitos de Jesus Cristo. Quando eu comparecer diante do Tribunal de Deus, cobrirei a minha mala feia com os méritos de Nossa Senhora. Depois abrirei a outra e apresentarei os méritos de Jesus Cristo. Direi ao Pai: ‘Agora julgai o que vedes’. Estou segura de que não serei rejeitada! Então me voltarei para São Pedro e lhe direi: ‘Pode fechar a porta porque eu fico!
     Na agonia, delirando, reviveu os terríveis anos de sua escravidão e vária vezes suplicava à enfermeira que a assistia: “Por favor, solta-me as correntes, pesam muito!” Às 20 horas do dia 8 de fevereiro de 1947, em Schio, ela entregava sua alma a Deus aos 78 anos de idade, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Suas últimas palavras foram: “Nossa Senhora! Nossa Senhora!” E seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.
     Uma grande multidão foi dar o último adeus à Madre Morena. Foi velada por três dias, durante os quais, contam as pessoas, suas articulações ainda permaneciam quentes e as mães tomavam sua mão para colocá-la sobre a cabeça de seus filhos.
     Foi enterrada inicialmente na capela de uma família de Schio, os Gasparella, provavelmente na espera de um sepultamento definitivo na Igreja da Sagrada Família. E assim foi em 1969, quando o corpo incorrupto de Bakhita foi sepultado sob o altar da Igreja do mesmo convento.
     A fama de sua santidade se espalhou rapidamente e todos iam ao seu túmulo pedir sua intercessão. O processo para a causa de canonização iniciou-se doze anos após a sua morte. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e em 1º de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares pelo Papa João Paulo II, sendo que o milagre que a levou a ser reconhecida como Santa, aconteceu em Santos, São Paulo, Brasil.

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