sábado, 3 de junho de 2017

Frances Margaret Allen, Religiosa Hospitaleira de São José


 
     Nascida em 13 de novembro de 1784, Frances Margaret Allen foi a filha mais velha do patriota americano Ethan Allen e sua segunda esposa, Frances Montresor Brush Buchanan Allen. Ela nasceu em uma casa construída por seu pai ao lado do Batten Kill em Sunderland, Vermont (Estados Unidos).
     Seu pai morreu de repente em 12 de fevereiro de 1789 quando ela contava apenas 4 anos. Após a morte de seu pai, a família mudou-se para Westminster para viver com sua avó materna. Foi em Westminster que sua mãe se casou com o Dr. Jabez Penniman em 1793. Penniman cuidou de Fanny (como era chamada) como se fosse sua própria filha, mostrando um grande interesse em sua educação.
    Na sua adolescência, Fanny teve uma experiência misteriosa que mais tarde seria um fator importante na sua decisão de entrar na vida religiosa católica. A história, em suas próprias palavras, é a seguinte:
     Quando eu tinha doze anos, estava caminhando um dia nas margens do rio que não fluía muito longe de nossa casa. A água, embora muito clara, rolava em torrentes. De repente, percebi que emergia do rio um animal mais parecido com um monstro que um peixe, pois era de tamanho extraordinário e forma horrível. Ele estava vindo diretamente para mim e tive um arrepio de terror. O que agravou o meu perigo foi que eu não podia me afastar desse monstro. Parecia paralisada e arraigada no chão. Enquanto eu estava nessa situação torturante, vi avançando para mim um homem com um semblante venerável e impressionante, vestindo uma capa marrom e carregando um bastão na mão. Ele segurou meu braço suavemente e me deu forças para me mover enquanto ele me dizia com bondade: "Minha filha, o que você está fazendo aqui? Apresse-se". Então corri o mais rápido que pude. Quando eu estava a uma certa distância, eu me virei para olhar para aquele homem venerável, mas eu não o vi em nenhum lado.
     Ao voltar para casa, Fanny descreveu a experiência para sua mãe, que enviou um servo para procurar o homem para agradecer por sua bondade. O homem nunca foi encontrado.
     Fanny foi educada no Middlebury Seminary e teve interesse em ciência. Ela não foi criada com respeito pela religião, em sua educação não havia espaço para isto. Seu pai era um cético da religião e seu padrasto considerava as afeições do povo religioso de seu tempo com ceticismo.
     Em 1801, Penniman foi nomeado Coletor de Alfândega para Vermont, momento em que a família se mudou para Swanton. Quando tinha 19 anos, Fanny pediu permissão de seus pais para ir para Montreal (Canadá). Ela afirmou que sua intenção era continuar sua educação ao estudar francês, mas seu verdadeiro motivo era talvez uma curiosidade intelectual sobre as crenças e práticas da Igreja Católica, mesmo que nunca tivesse ouvido nada além de observações depreciativas.
     Seus pais concordaram em enviá-la para Montreal, mas primeiro exigiram que ela fosse batizada pelo Rev. Daniel Barber, um sacerdote anglicano de Claremont, New Hampshire, que depois se converteu ao Catolicismo. Fanny que era fortemente irreligiosa na época, opôs-se fortemente, mas consentiu para agradar a sua mãe. No entanto, ela foi repreendida por Barber por rir durante toda a cerimônia.
  
Hotel-Dieu de Montreal onde Fanny professou (em 1826)
 Ela se tornou aluna das Irmãs da Congregação de Notre Dame em Montreal em 1807. Logo se converteria ao Catolicismo romano, sua conversão resultando de uma experiência sobrenatural. Conta-se que uma freira pediu a Fanny que colocasse algumas flores no altar da capela da congregação, pedindo também que ela fizesse uma oração em reconhecimento da Presença Real de Jesus Cristo no tabernáculo. Ela sorriu diante do pedido e não tinha intenção de honrá-lo. Quando ela tentou entrar no santuário, não foi capaz de fazê-lo, como se estivesse bloqueada por uma força invisível. Após três tentativas inúteis, ela ficou convencida da Presença Real e caiu de joelhos em adoração. No entanto, ela não informou isto imediatamente a seus professores, mas esperou algum tempo antes de fazer uma confissão e uma rejeição formal de seu protestantismo.
     Na festa da Natividade, 9 de setembro de 1807, ela pediu para ser instruída na fé. Fanny recebeu instrução na fé católica e foi rebatizada pelo Pe. L. Saulnier, um pároco de Montreal, uma vez que se determinou que seu batismo anterior era inválido devido à falta de disposição adequada para receber o sacramento. Foi na sua Primeira Comunhão que ela concebeu a ideia de ingressar na vida religiosa.
     Sua conversão ao catolicismo foi considerada como notável em Vermont, uma área na qual a Igreja Católica não tinha influência naquela época; foi ainda mais notável por sua decisão de se tornar freira. Em reação, seus pais imediatamente retiraram-na do convento e tentaram distraí-la da ideia de vida religiosa com festas pródigas e pretendentes bonitos. Eles até buscaram a ajuda da Igreja Episcopal para tentar convencê-la de que era a igreja que melhor combinava para ela.
    Fanny estava tão determinada em sua nova fé quanto antes estava em sua descrença. Ela rompeu seu noivado com Archibald Hyde. Todas as tentativas de dissuadir Fanny tiveram pouco efeito, no entanto ela concordou com o pedido de seus pais de esperar um ano antes de agir, durante o qual ela moraria com eles em Swanton. 
     Ao fim de um ano, ela voltou para Montreal, mas não tinha ainda ideia em que congregação religiosa ingressaria. Quando visitou o Hôtel-Dieu de Montreal com sua mãe, ela imediatamente foi atraída por uma pintura que estava pendurada acima do altar da capela. A imagem era uma representação da Sagrada Família. Atônita, comentou com sua mãe que a imagem de São José correspondia exatamente à aparência do homem que a salvara da criatura do rio aos 12 anos. "Ó grande São José", exclamou ela, "sois vós mesmo, o pai adotivo de Jesus, o marido de Maria, que veio me salvar daquele monstro, para me preservar da morte para que eu pudesse conhecer, amar e servir meu Deus. É aqui mesmo, mãe, é com as Irmãs de São José que desejo passar o resto da minha vida!
     Ela então ingressou no Hotel-Dieu, no hospital e no convento fundado pelo Venerável Jerônimo Le Royer, pela Venerável Marie de la Ferre e por Jeanne Mance cerca de 200 anos antes.
Vida religiosa
     Em 29 de setembro de 1808 foi recebida no noviciado das Religiosas Hospitalares de São José. Seus pais, que imaginavam que os conventos católicos não eram "melhores do que muitas prisões", após uma visita na primavera de 1809 ficaram satisfeitos por ver que Fanny estava feliz no convento e notaram também a felicidade das freiras ali e a felicitaram por sua escolha de vida. Quando ela fez sua profissão religiosa em 18 de maio de 1811, a Enciclopédia Católica relata que "a capela do convento estava cheia, muitos amigos americanos vieram testemunhar o estranho espetáculo de a filha de Ethan Allen se tornar uma freira católica". Fanny Allen tornou-se a primeira freira católica da Nova Inglaterra e um farol para muitos personagens célebres de Vermont que se converteram ao Catolicismo.
     Por onze anos Irmã Fanny Allen cuidou dos doentes e dos moribundos. Era um modelo de serviço e de oração enquanto cuidava de soldados feridos em Montreal, servindo de intérprete para os pacientes de língua inglesa, em meio a uma grande pobreza e ameaça iminente de doença durante a Guerra de 1812. Naquele período, ela cuidou de soldados britânicos que tinham sido feridos durante as lutas contra seus compatriotas americanos. Eles não sabiam que uma famosa americana estava cuidando deles.
     Ela passou o resto de sua vida como enfermeira, trabalhando no boticário do hospital. De acordo com relatos contemporâneos, Irmã Allen era frequentemente convocada por americanos que visitavam Montreal, "implorando para ver a linda jovem freira do Hotel-Dieu, que foi a primeira filha que a Nova Inglaterra deu ao recinto sagrado e que eles reivindicavam como pertencendo especialmente a eles por sua conexão com seu herói favorito". Essas interrupções eram aparentemente tão frequentes, que Irmã Allen pediu a permissão de sua Madre Superiora para recusar todas essas visitas, exceto as feitas por amigos da juventude.
     A Irmã Frances Margaret (Fanny) Allen das Religiosas Hospitaleiras de São José morreu em 10 de setembro de 1819 em Montreal no Hotel-Dieu. Tinha 35 anos, e foi enterrada na cripta abaixo da capela do Hotel-Dieu.
Legado
     Ela nunca veria o hospital que leva seu nome até hoje. O Hospital Fanny Allen em Colchester, Vermont, construído em 1879 e administrado pelas Religiosas Hospitalares de São José, recebeu este nome em sua homenagem. Este hospital, agora chamado Fletcher Allen, se fundiu em 1995 com outro hospital e foi reconstruído como o centro de atendimento no oeste de Vermont. Perto do campus deste hospital ainda existe um cemitério que mantém o nome de Fanny Allen
     Suas coirmãs, as Religiosas Hospitaleiras, nunca esquecerem de sua amada irmã na fé, e então, quando o bispo D. João Michaud as convocou para servir os doentes em Vermont, elas se lembraram da Irmã Fanny e aceitaram a oferta. Quando perceberam que a terra onde o hospital deveria ser estabelecido tinha pertencido originalmente à família Allen, elas ficaram mais convencidas a ir a Vermont. Na carta de aceitação ao bispo D. Michaud, elas lembram a primeira freira americana daquela ordem, dizendo: "nossa querida Irmã Allen, de memória doce e piedosa".
 
Hospital Fanny Allen em 1915
    Um de seus biógrafos observa que depois de sua morte vários familiares e amigos se tornaram católicos inspirados por seu testemunho. Seu ex-noivo, Archibald Hyde, ajudou a construir a primeira igreja em Burlington, Vermont (que foi incendiada por anticatólicos). Um dos seus cunhados, William Brayton, e uma amiga da família de longa data, Cynthia Martin, que se casou com Jabez Penniman depois da morte da mãe de Fanny, também seguiram o seu exemplo e optaram pela Igreja Católica. O ministro anglicano que batizou Fanny, Daniel Barber, se converteu e morou perto de seu filho Victor após sua conversão.
     (Obs.: A vida do Pe. Victor Barber, SJ, é digna de nota: ele era casado, com filhos, quando deixou a Igreja Episcopal. Sua esposa, Jerusha, tornou-se freira da Visitação, ele ingressou na Sociedade de Jesus e todos os seus filhos ingressaram em ordens religiosas.)
    Como todos os convertidos, Fanny Allen teve que superar muitos obstáculos, incluindo o medo e o ódio quase inato ao Catolicismo de sua família e de seu Estado. Sua conversão surpreendeu muitos amigos na época porque achavam que ela era muito inteligente para aceitar o que eles chamavam “superstição católica”. Mas ela abraçou a verdade quando encontrou mistérios que não podiam ser explicados somente pelo oráculo da razão. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Santa Camila Batista de Varano, Virgem religiosa da Segunda Ordem

     
     Nasceu em Camerino a 9 de abril de 1458. Filha de Júlio César Varani, típica figura de um homem do renascimento, Duque de Camerino, e de uma certa dama, Francisca de Mestro Giacomo de Malignis, antes das núpcias de seu pai com Joana Malatesta, de Rímini (conhecida como beata Joana ou Jane Malatesta).
     Bem cedo Camila foi levada ao Palácio dos Varani, família ilustre que desde a metade do século XIII dominava a cidade e o ducado de Camerino. Foi reconhecida como filha de Júlio César, e como tal, amada de modo particular. Também Joana acolhe-a com maternal afeto: o relacionamento que as duas mantêm é uma das realidades mais belas da infância e da juventude de Camila. Entre os 8 e 9 anos foi imensamente atraída por uma pregação do franciscano Domenico de Leonessa (observante) sobre a Paixão de Jesus. Fez voto de meditar todas sextas-feiras os sofrimentos do Senhor e de verter ao menos uma “lagrimazinha”.
     Depois de 1476, em contato com Frei Francisco de Urbino, começou a maturar sua vocação para a vida religiosa, diante da qual relutou muito. Depois de ter-se decidido, passou por sérias dificuldades e contrariedades vindas da parte dos parentes, de modo especial de seu pai. Desejam para ela um casamento que favoreça a política do ducado. Em 1481, ingressou finalmente no Mosteiro de Clarissas Urbanistas da cidade de Urbino. Estava então com vinte e três anos. Ao receber o hábito religioso, recebeu também o nome de Batista, tão corrente na época. Em 1482, fez sua profissão religiosa em circunstâncias para ela demais difíceis, tanto que ao escrever sua autobiografia, chama de “amarga profissão”.
     Em 1483, redige “As Recordações de Jesus”, opúsculo com instruções e admoestações recebidas de Jesus enquanto ainda estava em Camerino no palácio paterno. O pai, Júlio César, e seus filhos, não suportando que Camila estivesse longe, constroem em Camerino um mosteiro. A 4 de janeiro de 1484, Camila retorna a Camerino com oito irmãs para fundar uma comunidade clariana, não mais de Urbanistas, mas com a Regra própria de Santa Clara. No correr dos anos é eleita várias vezes abadessa.
     Humilde, serviçal, atenta às necessidades de suas irmãs, datam desses anos fortes experiências místicas, visões de Jesus, da Virgem e de Santa Clara. Em 1488, Camila escreve “As dores mentais de Jesus na sua Paixão”. Em 1491, numa prolongada inspiração, redige “A vida Espiritual”, sua autobiografia, endereçada ao Beato Domenico de Leonessa, seu confessor. Seguem outras obras, entre as quais “Instruções ao Discípulo”, dirigidas ao padre João de Fano, franciscano. Desde o ano de 1488 até 1490, passa por uma dolorosa crise espiritual. Sua autobiografia, redigida em fevereiro-março de 1491 data do final deste período. Em 1501, inicia-se uma nova crise: a familiar, que a envolve profundamente.
     O Papa Alexandre VI excomunga o pai de Camila unicamente por motivos políticos. O exército de Valentino aprisiona seu pai e seus irmãos Aníbal, Venâncio e Pirro, que posteriormente são assassinados. Camila, para não ser envolvida nas turbulências militares, foge com outra clarissa, parenta dos Varani, para Fermo. Em seguida, a pé, segue para Atri, onde as acolhe em seu castelo a duquesa Isabela Picolimini Tedeschini. Do massacre ocorrido no ano de 1501, restou somente o irmão mais novo de Camila, João Maria e o sobrinho Sigismundo, filho de Venâncio, por terem fugido com antecedência.
     Após a morte do Papa Alexandre VI (que como cardeal levara uma vida devassa, tendo vários filhos com algumas damas romanas, sendo eleito papa por tramas políticas), o duque João Maria é reintegrado no Senhorio de Camerino pelo Papa Júlio II (1503). Então Camila e a companheira retornam também a Camerino. Daí seria obrigada a sair novamente para fundar um mosteiro de Clarissas em Fermo (1505), por ordem do Papa. Em 1511, morre-lhe a mãe adotiva, Joana Malatesta, que lhe assinalou profundamente a existência.
     Em 1521, empreende uma viagem a São Severino, nas Marcas, em busca de fundos para seu mosteiro. As fundações de Camerino e de Fermo, realizadas com empenho da observância radical da Regra de Santa Clara, lhe deram também a fama de ter sido excelente reformadora da Ordem de Santa Clara.
     Camila morreu na festa de Corpus Christi a 31 de maio de 1524, com grande dor de seu irmão João Maria e de toda a corte ducal, e foi enterrada no coro de seu mosteiro. Trinta anos mais tarde, seu corpo foi exumado e foi encontrado em um estado de perfeita preservação. Foi enterrado novamente para ser exumado em 1593. A carne foi então reduzida a pó, mas a língua ainda permaneceu muito fresco e vermelho.
     A Santa deixou uma preciosa herança de manuscritos, alguns em latim e na maioria em dialeto umbro. Suas obras tornaram-se famosas na literatura mística.
    No seu conjunto, os escritos de Batista são notáveis pela originalidade do pensamento, pela espiritualidade marcante e pela linguagem vividamente pictórica. Tanto São Filipe Neri quanto Santo Afonso registraram sua admiração por esta talentosa mulher que escreveu com igual facilidade em latim e italiano, e que foi considerada uma das mais brilhantes e consumadas eruditas de seu tempo.
     O culto imemorial de Camila foi aprovado por Gregório XVI em 1843, e foi canonizada pelo Papa Bento XVI a 17 de outubro de 2010 em Roma. Sua festa ocorre no dia 31 de maio e é mantida na Ordem Franciscana em 2 de junho.
     “Serve-o por puro amor, porque Ele é o Senhor que só merece ser servido, amado, louvado por cada criatura”, disse Camilla em um dos seus escritos.


Fonte: http://www.franciscanos.org.br

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria - 31 de maio

     
     Na Festa da Visitação de Nossa Senhora, o segundo mistério gozoso do Rosário, também a Festa do 'Magnificat', se estende e expande a alegria messiânica da salvação. Maria, Arca da Nova Aliança, é recebida por Isabel como a Mãe do Senhor. A Visitação é o encontro entre a jovem mãe, Maria, a serva do Senhor, e o antigo símbolo de Israel expectante, Isabel. A solicitude amorosa de Maria, com a sua viagem apressada, expressa o ato de caridade. João, que pulou no ventre de sua mãe, já começa sua missão precursora. O calendário litúrgico leva em conta a narrativa do Evangelho que coloca a visitação dentro dos três meses da Anunciação e o nascimento de João Batista. (M. Rom.)
     Logo após a Anunciação, Maria Santíssima parte imediatamente para Hebron, ao sul de Jerusalém, para visitar sua prima Santa Isabel e o marido dela, Zacarias. Os católicos creem que o objetivo desta visita foi levar a graça divina para Isabel e para o seu filho ainda não nascido, João Batista. Creem ainda que o fato de João ter estremecido no ventre de Santa Isabel quando Maria a cumprimentou é sinal de que ele reconheceu a presença de Jesus e, neste instante, foi purificado do pecado original e preenchido com a graça divina. O diálogo travado entre as duas, como preservado no texto de São Lucas se tornou parte da oração da Ave Maria quando Isabel diz «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre» (Lucas 1:42).
     Esta festa tem origem medieval, já sendo celebrada pela Ordem dos Franciscanos antes de 1263, quando São Boaventura a recomendou e eles a adotaram. A partir do breviário da Ordem, ela se espalhou para muitas outras igrejas. Em 1389, o Papa Urbano VI, com o objetivo de terminar o Grande Cisma do Ocidente, a inseriu no calendário romano, para celebração em 2 de julho. No calendário tridentino era uma festa dupla. Quando o missal do Papa Pio V foi substituído pelo de Clemente VIII em 1604, a Visitação se tornou uma festa dupla de segunda classe. Ela permaneceu assim até que o Papa João XXIII a reclassificou como uma festa de segunda classe em 1962. Ela continuou a ser comemorada no dia 2 de julho, o dia depois da oitava seguinte à festa do nascimento de João Batista, que estava ainda no ventre de Isabel na época da Visitação. Em 1969, porém, o Papa Paulo VI a moveu para 31 de maio, "entre a Solenidade da Anunciação do Senhor (25 de março) e a do Nascimento de João Batista (24 de junho), para que ela se harmonize melhor com o relato do Evangelho.

O Evangelho (Lucas 1,39-56)
     Naqueles dias, levantando-se Maria foi com pressa às montanhas, à uma cidade de Judá. E entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. E aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz e disse: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! E donde a mim esta dita, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino exultou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada tu que creste, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” Maria então disse:

“A minha alma glorifica o Senhor,
e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos em sua humilde serva.
Por isso todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes maravilhas obrou comigo o Onipotente, cujo nome é santo. 
Cuja misericórdia se estende de geração em geração
em todos os que o temem.
Ele mostrou o poder de seu braço: 
transtorna os desígnios dos soberbos.
Derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes.
Enche de bens os necessitados e os ricos deixa vazios.
Acolheu Israel, seu povo, lembrando-se de sua misericórdia, 
Para cumprir a promessa que fez aos nossos pais,
Abraão e a todos os seus descendentes. 

     Maria ficou três meses com Isabel. Depois, voltou para sua casa


Ain Karem – Visitação
     Entre as igrejas de S. João e da Visitação, encontra-se uma fonte chamada pelos peregrinos do século XVI de “Fonte da Virgem”. Segundo uma tradição, naquele lugar Maria teria encontrado sua prima Isabel e entoado um hino de louvor, o Magnificat: canto de gratidão a Deus.

A tradição Cristã
     A visita da Virgem Maria a Isabel é situada pela primeira vez num lugar diferente da natividade de S. João, já nos inícios do século XVI: “A casa de Zacarias se encontra sobre as montanhas da Judéia... Naquele lugar existem duas igrejas... e entre estas igrejas jorra uma fonte abundante de águas. No lugar da primeira igreja se diz que Isabel foi saudada pela Bem-Aventurada Virgem Maria. Se diz também que no mesmo lugar foi escondido o bem-aventurado João Batista no tempo do massacre dos inocentes. No lugar onde se encontra a segunda igreja, nasceu João Batista” (Frei Giovanni Fedanzola de Perugia, 1330). 




sexta-feira, 26 de maio de 2017

Santa Ubaldesca Taccini, Virgem da Ordem de Malta - 28 de maio

Martirológio Romano: Em Pisa, da Toscana, Santa Ubaldesca, virgem, que durante cinquenta anos, desde os dezesseis de idade até sua morte, realizou de forma constante e perfeita obras de misericórdia no hospital de sua cidade. (c. 1130-1206).

Santa Ubaldesca Taccini: ela protestou a um anjo que ela não tinha o dote necessário para se juntar à congregação... e esmolava nas ruas de Pisa para manter a Ordem e seus ministérios.

     Santa Ubaldesca Taccini é uma santa que marcou profundamente a vida espiritual de Pisa nos séculos XII e XIII, junto com Santa Bona, São Guido da Gherardesca e São Ranieri.
     Em um período histórico que viu a República Marítima de Pisa dominar o Mediterrâneo e os seus cidadãos gozarem de um determinado padrão de vida, a santa propôs um modelo de vida separada da vida social da cidade e estritamente fiel à mensagem de pobreza e de renúncia pregada por Jesus.
     Nascida em Calcinaia em 1136 de pais de condições humildes, Ubaldesca, filha única, desde jovem mostrava-se humilde e dedicado aos pais e a Jesus. Diligente na prática da oração, muitas vezes acompanhada de jejum, a Santa de Pisa se destacou especialmente pela caridade exercida junto aos pobres.
     Chamada pelo Senhor para ingressar na Ordem de São João de Jerusalém (estabelecida alguns anos antes, em 1099, em Jerusalém, na Igreja de São João Batista sob a regra de Santo Agostinho) aos 15 anos deixou Calcinaia e dirigiu-se à cidade de Pisa, parando na Igreja do Santo Sepulcro (construída no início do século XII pelo arquiteto de Pisa Diotisalvi).
     Durante os 55 anos de vida religiosa, Ubaldesca praticou no mosteiro e no hospital da cidade a humildade e a caridade, mortificando continuamente seu corpo com jejuns intensos e prolongados. A santa realizou milagres já durante sua vida e depois de sua morte ocorrida no dia 28 de maio de 1206, Festa da Santíssima Trindade, as curas extraordinárias ligadas ao seu nome se multiplicaram.
     Atualmente algumas relíquias de Ubaldesca Taccini são encontradas também em Malta, concedidas em 31 de junho de 1587. Sisto V (1585-1590) concedeu a indulgência plenária a quem visitasse a Igreja de Malta no dia 28 de maio.


A propósito de Santa Waldesca e das cruzes patadas de Veguillas (Espanha)
     Há indícios da presença da Ordem dos Templários na Idade Média em zonas próximas a Veguillas (Espanha) como Villel e Tramacastiel, municípios com muitos episódios históricos compartilhados. Santa Waldesca é muito conhecida, bem como a cruz patada.
      Ela na realidade se chamava Santa Ubaldesca Taccini (1136-1206). Seu nome, em grafia no século XVI, era Vvaldesca – o U e o V eram escritos da mesma forma e a troca do b pelo v era um erro de transcrição muito comum – dando origem a denominação usada em Veguilhas.
     Santa Ubaldesca era natural de Pisa (Itália) e foi monja consagrada a serviço dos doentes da Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, também conhecida como Ordem de Malta, fundada no século XI. Se lhe atribuíam milagres como converter a água em vinho imitando ao Messias, manter o pão durante três dias dentro do forno sem queimar-se e tirar água de um poço seco, resultando que a representação mais comum dela é com um trigo na mão e uma vasilha de vinho ou uvas na outra.
     A Ordem se implantou fortemente em Aragão, Catalunha e Valência (Reino de Aragão na Idade Média), sobretudo no vale do Ebro, desde o século XII. Tinham numerosos conventos, castelos, hospitais e herdades fruto de doações de fiéis e de negócios que exerciam.

     O símbolo da Ordem de São João de Jerusalém é a Cruz de Malta com oito pontas. Esta cruz muitos cavaleiros e ordens religiosas levavam em suas roupagens como símbolo de distinção, vermelha para os templários, branca para os hospitalários e preta para os teutônicos. Cada uma das oito pontas da Cruz de Malta representa uma das oito bem-aventuranças para o ramo religioso: lealdade, piedade, franqueza, coragem, glória e honra, desprezo à morte, ajuda ao pobre e ao doente, e respeito à Santa Igreja.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Virgem Iverskaia

Chamou-nos a atenção, enquanto fazíamos uma busca em textos antigos, o conteúdo do artigo que damos a seguir. Há tanta conexão com o Centenário de Fátima, que nos pareceu interessante trazê-lo ao conhecimento dos leitores deste blog. Que a Virgem Ibérica volte a reinar na nação que a profanou!

 Virgem Iverskaia, esperança de conversão da Rússia

     Uma das mais importantes coleções de ícones – pinturas religiosas típicas do Oriente – existentes na Europa, e talvez no mundo, encontra-se na pequena cidade de Torrejón de Ardoz, não longe de Madri. Ali, na antiga granja do Colégio Jesuíta de Santo Isidro, é que o nobre Sérgio Otzoup instalou seu Museu de Ícones.
     Não se sabe ao certo a data da construção do conjunto de edifícios da granja, mas tudo leva a crer que tenha sido nos primeiros anos do século XVII, quando a Companhia de Jesus adquiriu um pedaço de terra em Torrejón, para usá-lo no abastecimento do Colégio Imperial, fundado pela Imperatriz Maria, filha de Carlos V e viúva de Maximiliano I.
     Com a expulsão dos jesuítas da Espanha em 1767, a granja foi adquirida por D. Juan de Aguirre. Em 1805, o extenso imóvel estava em poder da casa dos Pignatelli de Aragão, Condes de Fuentes, muito chegados aos filhos espirituais de Santo Inácio, aos quais devolveram o direito sobre o solar, durante a restauração da Companhia de Jesus no reinado de Fernando VII.
     Expulsos novamente os jesuítas da Espanha no século XIX, volta a granja às mãos dos Condes de Fuentes, permanecendo com eles até 1902. Por fim, restaurada por D. Rafael Onieva Ariza, com toda a magnificência atual, foi ela destinada para fins culturais, recebendo o nome de La Casa Grande.
* * *
     Se percorrermos as dependências de La Casa Grande, e penetrarmos no Museu de Ícones, uma pintura da Mãe de Deus chama especialmente a atenção: a Virgem Iverskaia ou Virgem Ibérica.
     Nela, a Mãe de Deus é representada tendo em seu braço esquerdo o Menino Jesus, com a majestade de quem se assenta em seu trono natural. É em Maria que encontra Jesus suas complacências. A Virgem, ao mesmo tempo que sustém com todo cuidado e proteção o Menino Deus, com o braço direito indica ao fiel ser Ele o modelo de todas as perfeições e o Juiz supremo de todas as causas. Como Medianeira Universal de todas as graças que é, seu terno olhar volta-se para cada devoto que se apresenta a seus pés invocando sua intercessão e confiando em seu amparo.
     A harmonia, a doçura que se desprendem da pintura – toda feita de cores em que predominam o vermelho e o dourado, mas suaves e matizadas – são contrariadas violentamente ao observarmos nela alguns furos ocasionados por balas de fuzil. Percebem-se marcas claríssimas de fuzilamento, tanto no rosto da Mãe quanto no do Filho!
     Esse fato tão insólito encontra sua explicação em passado ainda recente. Sua data? 13 de maio de 1917!
     Sim. Enquanto em Fátima Nossa Senhora aparecia pela primeira vez, dando início a uma série de manifestações em que profetizava a expansão dos erros da Rússia pelo mundo inteiro, como açoite pelos pecados do gênero humano, e prometia o triunfo final de Seu Coração Imaculado, em Moscou, essa profanação era cometida durante os distúrbios que precederam à revolução bolchevista.
* * *
     Infelizmente, como se sabe, com o cisma do Oriente, pequeno foi o número dos fiéis que, no Império dos Czares, continuaram a manter sua fidelidade ao trono de São Pedro. Um belo exemplo do que restou dessa união com a Cátedra da Verdade deu-se no jubileu de São Pio X, quando uma delegação de católicos russos presenteou o Santo Pontífice com um ícone da Mãe de Deus, justamente sob a invocação de Virgem Iverskaia. De onde, tudo leva a crer que esse culto a Nossa Senhora é anterior à ruptura daquela nação com Roma. Tendo até, quem sabe, um significado auspicioso para a conversão da Rússia, anunciada na Mensagem de Fatima.
     Dentro do cisma, a Virgem Santíssima continuou ainda a ser cultuada – se bem que fora da verdadeira Igreja de Cristo – em muitíssimos santuários, e por meio de vários ícones espalhados por todo aquele vasto território.  Entre estes, destacava-se o da Virgem Ibérica, que é padroeira de Moscou, e cujo nome tinha sua origem na Ibéria, região do sul da Rússia, na zona do Cáucaso. Esta pintura de Maria ficava exposta numa pequena capela na entrada do Kremlin. Segundo prospectos e cartões do museu de Torrejón de Ardoz, esse ícone teria sido pintado no século XVI.
     Deposto o Czar, durante a efêmera regência do Príncipe Lvov, sob o governo de Kerensky, a capela de tal forma foi destruída naquele dia 13 de maio do ano da Revolução comunista, que dela não restou pedra sobre pedra. O ícone da Virgem Iverskaia foi fuzilado e consta que chorou ao ser profanado! Considerada perdida durante esses meses que antecederam a revolução bolchevista, a pintura da Mãe de Deus pode ser conservada juntamente com outros tantos ícones, graças a Sérgio Otzoup, que em dezembro de 1918 conseguiu retirá-los da Rússia.
     Hoje, exposta no Museu de Ícones de La Casa Grande, a Virgem Iverskaia – profanada por ódio à Religião – permanece como sinal de esperança, sobretudo para a Rússia e também para o mundo, da nova era prometida por Nossa Senhora em Fátima, e profetizada por São Luís Maria Grignion de Montfort – o extraordinário missionário francês do século XVII – como sendo o Reino de Maria!


Fonte: Revista Catolicismo, maio de 1986

Auxilium Christianorum, ora pro nobis!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nossa Senhora de Quercioli – 24 de maio

   
     O Santuário de Quercioli está localizado a cem metros da estação de Massa Carrara-Pontremoli, na Toscana, Itália, e é dedicado a "Maria, Auxílio dos Cristãos". Ali é venerado um afresco antigo que representa a Virgem Mãe com o Menino e Santo Antônio de Pádua em oração. A pintura data de meados do século XVIII. Domenico Nocchi tinha mandado pintá-la na parede de sua casa em 1754. Por ocasião de sua morte, a casa foi vendida e mais tarde foi completamente abandonada, e a imagem sagrada foi coberto de sarças.
      Em 19 de setembro de 1831, três mulheres foram dar um passeio naquela localidade, e ficaram impressionadas com aquela bela imagem sorridente e, nos primeiros dias de março do ano seguinte, uma das três mulheres levou àquele local uma sobrinha muito doente que, após a oração, foi repentinamente curada. O culto à imagem começou na segunda-feira de Páscoa de 1832, quando a notícia do milagre se propagou. Imediatamente se pensou em erguer uma igreja no local, a qual foi concluída no ano seguinte.
     Em 25 de maio de 1835, houve um outro milagre: José Bertozzi, soldado do exército ducal, cego, recuperou a visão depois de ter rezado a Nossa Senhora de Quercioli.
     Em 1909, o santuário foi entregue à direção dos Frades Capuchinhos da Província religiosa de Lucca, que ainda prestam o serviço religioso no Santuário. Em 1932, quando era Reitor do Santuário o padre capuchinho Dionísio Cantarelli, o templo foi ampliado.
     Em 1946, o Santuário foi elevado à paróquia e a imagem foi solenemente coroada no dia 6 de junho de 1948. Em 1973 grandes restaurações foram iniciadas.
     A primeira igreja tinha o formato de uma cruz grega, com uma cúpula majestosa projetada pelo arquiteto José Marchelli de Modena; um século mais tarde, a igreja foi transformada em cruz latina. O milagre do soldado, pintado no arco principal, foi executado em 1932 pelo pintor Oreste Bontemps, de Massa. É a versão de uma pequena pintura a óleo feita em madeira deixada no Santuário de Quercioli em memória do milagre. Há no santuário uma pintura em têmpera, realizada por um artista desconhecido, descrevendo Nossa Senhora com os emblemas da Imaculada Conceição, Santa Maria Madalena, Santa Catarina virgem e mártir, e alguns anjos. Este quadro foi trazido do convento dos frades capuchinhos de Massa e deve ter sido feito por volta no final do século XVI e início do século XVII.
     O edifício harmônico mantém alguns paramentos sagrados e um estrado de madeira do século XVI, representando o Pai Eterno com anjos, atribuído à escola de Ghirlandaio.


Interior do Santuário

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Beata Humiliana Cerchi, Viúva e Terciária Franciscana - 19 de maio

Martirológio Romano: Em Florença, Beata Humiliana, da Ordem Terceira de São Francisco, que suportou com paciência e mansidão muitos maus tratos do esposo e, tendo enviuvado, se dedicou inteiramente à oração e às obras de caridade (†: 1246).


     Os Cerchi, guelfos da parte branca, eram uma família ilustre: um irmão de Humiliana ocupou cargos públicos importantes. Era época de lutas infinitas, mesmo dentro das muralhas da cidade. O vizinho podia ser um inimigo e, portanto, cada casa rica tinha a sua torre. Os guelfos eram leais ao Papa e os gibelinos ao imperador alemão. Na verdade, mais do que por motivos políticos se lutava por motivos econômicos; ricos comerciantes e nobres que disputam o poder. Em Florença, as lutas começaram com a morte de Buondelmonte, no domingo de Páscoa de 1215.
     Naquele período turbulento o espírito evangélico deu origem a novas plantas dentro da Igreja, pensamos nos franciscanos e nos dominicanos. São Francisco morreu quando Humiliana tinha sete anos. A notícia causou um rebuliço mesmo em Florença, que ele tinha visitado muitas vezes, e certamente chegou aos ouvidos de Humiliana.
     Humiliana nasceu em Florença em 1219, filha de Olivério Cerchi. Por perder a mãe quando era ainda criança, foi educada pela madrasta Ermelina, consanguínea de São Filipe.
     Conhecemos pouco de sua infância, mas podemos imaginá-la bastante normal. As mulheres eram sujeitas a muitas limitações, eram submissas ao pai ou ao marido, tinha que respeitar as regras sociais, mesmo nas roupas. Aos quinze anos de idade, em obediência ao seu pai, ela se casou com Bonaguisi, um tecelão tão rico quanto ganancioso e rude, provavelmente usurário. O pai havia colocado bem as outras filhas, por exemplo, as uniões com os Adimari e os Donati. O casamento de Humiliana foi, portanto, um acordo econômico entre duas famílias ricas (o dote esponsal era um verdadeiro contrato), sendo completamente insignificantes as suas aspirações. A jovem noiva sofreu acima de tudo pelas iniquidades e má conduta do cônjuge, e tentou compensar isso com muitas obras de caridade.
     A Providência sempre vem em auxílio dos justos. Humiliana encontrou em sua nova casa uma colaboradora excepcional: a cunhada Ravena. Foi um apoio importante porque, sendo maior idade, tinha o controle da casa e juntas elas chamavam menos atenção. A união foi perfeita. Levantavam-se cedo e iam à Missa (geralmente na vizinha igreja de São Martino), faziam o trabalho doméstico, coordenando os empregados. Elas, então, dedicavam-se às obras de misericórdia. Humiliana geralmente se levantava antes do estabelecido e, enquanto o silêncio envolvia a casa, ela rezava intensamente ao seu Jesus. Ravena testemunhou que Humiliana subtraía da mesa toda a comida que podia para distribuí-la aos pobres, juntamente com sapatos e roupas. Para os doentes, uma vez que ela esvaziou metade do seu colchão. Juntas, elas visitavam o Mosteiro dominicano de Ripoli e o hospital de São Gallo.
     Humiliana também confeccionava paramentos sagrados para as igrejas que visitava, usando escondido os tecidos preciosos que o marido lhe dava: ela tinha uma grande veneração pelo culto divino. Para os pobres intervinha junto aos conhecidos ricos para obter recursos e muitas vezes trabalhava à noite, longe dos olhos das pessoas. Na caridade, a única regra era a de Cristo. Quando foi descoberta, teve que suportar insultos e espancamentos do esposo e até de parentes do marido. Mas Humiliana conhecia a passagem do Evangelho que chama Bem-aventurados os perseguidos por causa do Senhor. Encarnando perfeitamente o ideal franciscano, ela tomou o hábito da Ordem Terceira, na Igreja de Santa Cruz das mãos de Frei Michele Alberti, seu confessor.
     Humiliana teve duas filhas; o casamento durou cinco anos até a morte repentina de seu marido, que morreu com os últimos sacramentos. Os parentes tinham de manter por um ano a viúva que, em seguida, voltou para sua família. Durante este ano ela convidou para sua mesa muitos pobres. O costume cruel do tempo estipulava que as crianças deviam ser deixadas com os parentes do marido (no caso de Humiliana, felizmente, seriam cuidadas por Ravena).
     Viúva com pouco mais de vinte anos, seu pai tentou convencê-la a se casar novamente. Desta vez a negação foi inflexível, ela queria entrar no Mosteiro de Monticelli (fundado por Santa Inês, irmã de Santa Clara). Os planos do Senhor, no entanto, eram diferentes. O seu dote que foi devolvido foi cedido ao seu pai (por um ato oficial!) e não podendo se tornar uma freira, em 1241 pediu e obteve do papa autorização para viver isolada na torre dos Cérchi, próximo da Praça da Senhoria. Privada dolosamente de grande parte dos bens, se alegrou com isso, deu graças a Deus e se dedicou à penitência e a esmola, distribuindo aos pobres o pouco que lhe restava.
     A fiel Gisla era mais do que uma camareira, foi uma companheira. No isolamento de seu quarto, com o essencial, montou um altar para Nossa Senhora. Passava os dias rezando e fazendo penitência, mesmo com cilicio. Jejuava nos dias de festa e nas vigílias, durante a Quaresma e Advento. Em alguns períodos, ela também respeitava o grande silêncio. Ela sofreu muito por causa da impossibilidade de continuar as atividades caritativas. Ela se deu toda a Deus, a castidade da viuvez. Ela vivia como uma reclusa no coração de Florença, entre as pessoas que muitas vezes iam visitá-la (incluindo as filhas). Seu quarto tornou-se uma espécie de centro espiritual; entre outras coisas, a cada Quinta-feira Santa ela lavava os pés de suas irmãs terciárias. A Fé, sua riqueza mais importante, sempre a apoiara em dificuldades e Cristo recompensou consolando-a todos os dias. Não faltaram as vexações diabólicas e as provas espirituais, mas também as visões místicas. Foram muitos os dons com que Deus a agraciou: êxtases, espírito profético e poder taumatúrgico.
     Muitos episódios da sua vida mereceram ser inscritos em florilégios legendários: ser curada duma chaga dolorosa por meio dum sinal da cruz traçado por mão invisível; fazer com que a água substituísse o azeite para alimentar a lamparina do Santíssimo Sacramento; seu Anjo da Guarda a chamava de madrugada para a oração da manhã; padecendo de sede em virtude de uma febre, veio a Virgem Maria dar-lhe de beber; Jesus muitas vezes a alimentou com pão e mudou a água em vinho, e  ressuscitou uma filha morta subitamente. Satanás vinha tentá-la com alucinações e seduções, com imagens sedutoras ou formas repelentes: a firmeza de sua fé defendia-a sempre desses assaltos.
         Ela adoeceu, mas se manteve em silêncio para evitar distúrbios: uniu seus sofrimentos aos de Cristo na Cruz. No dia de sua última Páscoa terrena, ao som dos sinos caiu em êxtase. Ela morreu, assistida apenas pela fiel servidora, no alvorecer de 19 de maio de 1246. Era sábado, o dia dedicado a Maria e Humiliana tinha vinte e sete anos. O funeral foi triunfal dado que já a cercava a fama de santidade. Seus pés foram enfaixados para evitar os excessos das pessoas; ela tinha expressado esse desejo movida pelo senso de pudor que sempre lhe fora tão caro. As pessoas aclamaram-na santa e espontaneamente se dirigiam ao seu túmulo para rezar. Ela foi enterrada em sua igreja favorita de Santa Cruz. No começo, ela foi enterrada no chão, em seguida, por trás de uma parede sob as escadas do púlpito, até que seu irmão Arrigo (que seguira seu exemplo se tornando franciscano), dispôs uma capela no claustro. Hoje suas relíquias são veneradas em uma capela do transepto, em uma urna artística. A humilde beata repousa na basílica que o mundo inteiro conhece por suas obras de arte e porque ali estão sepultados alguns grandes da Itália.
     Sua vida foi escrita em latim pelo Frei Vito de Cortona (do convento de Celle) e pelo confessor Frei Miguel, sendo que os dois a tinham conhecido. Houve uma atenção incomum ao recolher testemunhos: são citadas escrupulosamente trinta e quatro testemunhas, incluindo três cunhadas, uma avó e três empregadas domésticas. Mesmo os milagres (quarenta e sete), que ocorreram nos três anos após a morte, foram registados por Frei Hipólito, do mesmo convento. A biografia foi resumida trezentos anos mais tarde por Raphael Volterrano e pelos Bollandistas. Exemplo de grande e humilde mulher, de filha, de esposa e mãe, nela resplandeceram as virtudes da humildade, da caridade e da obediência. Suas maiores devotas eram as mulheres em necessidade. O seu culto foi aprovado pelo papa Inocêncio XII em 24 de julho de 1694.
Busto relicário da Beata Humiliana



Fonte: www.santiebeati.it Autor: Daniele Bolognini