domingo, 1 de fevereiro de 2026

Santa Joana de Lestonnac, Viúva e Fundadora - 2 de fevereiro

     
     Numa fria manhã de 1556, Ricardo de Lestonnac, nobre magistrado e conselheiro do rei, que preside seu lar em Bordéus (França), recebeu do céu uma bênção: a primogênita, Joana, que encherá a nobre morada com a luz de seus olhos azuis e de seu encanto especial. Joana Eyquen de Montaigne, a nobre castelã, recebeu em seus braços com alegria a pequenina, mas se opõe tenazmente que a filha receba o batismo católico. A vontade firme do pai triunfa e Joaninha começa sua vida no campo do combate familiar, o que colocará em grave perigo a pureza de sua fé.
     O veneno é inoculado por meio de carícias maternas: historietas maliciosas contra os sacerdotes e o Vigário de Cristo, ausência total da Virgem Santíssima. Desta forma a nova apóstata calvinista tentava trazer para si o terno coração da pequena, a quem o tio, o célebre filósofo Miguel de Montaigne, chamou sem titubear "bela princesa, albergada num magnífico palácio".
     Seus tios, os senhores de Beauregard, se unem à mãe herege neste trabalho. Mas Miguel de Montaigne velava pela guarda de sua fé. A menina triunfou na luta com a firme ajuda de seu pai e com a cooperação de seu irmão Guy, que repetia à noite o que aprendera no colégio que frequentava, dirigido pelos padres jesuítas. Era a nova Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio, que chegara a Bordéus.
     A devoção a Nossa Senhora se enraizou em sua alma, e seu desejo de sacrificar o porvir brilhante que o mundo lhe oferecia pela vida religiosa, cedeu somente diante da insistência paterna que teme os claustros e mosteiros invadidos pela heresia calvinista.
     Tendo Joana dezessete anos, o pai, atendendo aos insistentes pedidos de Gastão de Montferrant, Barão de Landiras e de la Mothe, concedeu-lhe a mão da filha. A vida matrimonial foi muito sólida e Joana foi mãe oito vezes. Os três primeiros morreram muito pequeninos. Os outros cinco - dois varões e três mulheres - foram crescendo sob o olhar atento da mãe.
     A baronesa, como a mulher forte do Evangelho, ensinava aos filhos os deveres da caridade católica: visitas aos pobres, aos colonos, atendimento abnegado aos pobres que lhes batem à porta. Não sem razão o mundo inteiro a chamaria um dia de "honra e glória da França e da Igreja".
     Em 1597, após 24 anos de matrimônio, Gastão de Montferrant faleceu. Seguiram-se grandes dores e tristezas: a morte do esposo, do filho mais velho, do pai e do tio. Joana ficou só e continuou com fortaleza a educação dos quatro filhos que lhe restaram.
     Seis anos mais tarde, tendo seu filho Francisco se casado e suas filhas Marta e Madalena se consagrado a Jesus nas Anunciadas de Bordéus, resolveu deixar a filha mais nova, Joaninha, sob os cuidados de Francisco e da esposa, e ingressar no convento.
     Na manhã de sua partida, saiu muito cedo do palácio para evitar as despedidas, porém, seu coração de mãe ainda enfrentou mais um sacrifício: é surpreendida com a súbita chegada da filha mais nova, que se lança em seus braços desfeita em prantos e pedindo para ela não deixar Bordéus.
     Aos 46 anos de idade, ela ingressou no Mosteiro Cisterciense de Toulouse. Mudou seu nome para Joana de São Bernardo. Este ramo feminino dos Cistercienses reformados nascera na Abadia de Feuillant, na Gasconha, para reagir à decadência da Ordem.
     Seis meses após ter vestido o santo hábito, sua palidez preocupava a comunidade e suas rigorosas penitências esgotaram suas forças por completo. A Madre Superiora a convenceu a voltar para o seu castelo.
     Naquela noite, esforçando-se para aceitar a vontade de Deus e mais esta prova, teve uma visão celestial que a faz ver o abismo do inferno. Nele caem muitas jovens em espantoso torvelinho e estendiam os braços implorando seu auxílio. Sobre este quadro espantoso apareceu magnífica e grandiosa a imagem de Maria. Ela compreendeu a vontade de Deus. A futura Companhia de Maria, em benefício da juventude feminina, começou a delinear-se naquela última vigília no convento cisterciense.
     Após deixar o mosteiro, Joana se retirou em La Mothe. Em 1605, encontrava-se em Bordéus e trabalhava como voluntária com outras senhoras e moças durante uma epidemia de peste, e aí descobriu sua vocação: o trabalho na sociedade, entre as jovens mais necessitadas de ajuda e instrução. Foi visitando e cuidando das pessoas nas regiões mais pobres da cidade, e em contato com as jovens que eram atraídas pelo chamado de Deus e por sua personalidade, que ela desejou realizar o trabalho apostólico que a atraia. Ela percebeu que a espiritualidade inaciana expressava sua própria espiritualidade.
     Ela manteve contatos com dois Jesuítas, Pe. de Bordes e Pe. Raimundo, que compartilhavam suas preocupações. O Papa Paulo V aprovou a fundação da Companhia de Nossa Senhora em 7 de abril de 1607.
     Em 11 de março de 1608, diante da generosa resposta de cinco primeiras companheiras, a cidade de Bordéus, engalanada, participou da tomada de hábito das religiosas que iniciaram o combate da Companhia de Maria.
     O Cardeal François d’Escoubleau de Sourdis, inicialmente protetor da obra, desejou mais tarde ligá-la às Ursulinas, e lhes negou a profissão em maio de 1610. Porém, a 7 de dezembro, em seu castelo de Lormont, recebeu uma graça particular da Santíssima Virgem que advogava em favor de suas filhas, e, na festividade da Imaculada, o mosteiro de Joana assistiu à profissão da fundadora e de suas primeiras companheiras, que já eram nove.
     Como todas as obras de Deus, forte vendaval de perseguição sacodiu a ainda frágil árvore. Por isso mesmo ela se enraizou mais fortemente e em breve as sementes lançadas germinarão: antes que a alma da fundadora voasse para o Céu, são quarenta as novas preciosas e florescentes ramagens. Joana enfrentou desde os desprezos de Lucia de Teula, fundadora frustrada de Toulouse, que não lhe poupou insultos e perseguições, até a traição de uma de suas filhas, única infiel no grupo de suas primeiras religiosas, que cedendo a uma tentação ambiciosa fez chegar ao prelado falsas acusações.
     "A parte que Jesus nos dá de sua Cruz nos faz conhecer quanto Ele nos ama", repetiria mais tarde a Santa fundadora.
     Em 1622, retiraram-lhe o cargo e ela deixou Bordéus. Entretanto, as outras casas continuam a dedicar-lhe a estima, o afeto e a confiança devidos à Fundadora da Ordem. Ela é considerada a Madre Geral, mesmo que o status lhe é recusado pela Igreja, e que ela não possa se comunicar com as outras casas naquele terrível período.
     A Fundadora, relativamente idosa, parte para fundar uma casa em Pau. Ela aí permaneceu até 1634, se ocupando da organização da vida da nova fundação e ensinando as meninas mais pobres. Num silêncio santo e exemplar, deixava admirados todos quantos tinham a dita de tratar com ela.
     No fim de seu mandato, em 1626, a superiora ingrata reconheceu seus erros e pediu publicamente perdão a Santa Joana de Lestonnac.
     A pedido dos superiores e por insistência do Cardeal de Sourdis, ela retornou a Bordéus para consagrar seus últimos anos à redação definitiva das Constituições que foram impressas em 1638. Todas as casas e a Ordem viverão sob estas Constituições em qualquer parte do mundo onde elas estiverem.
     No dia 2 de fevereiro de 1640, a religiosa que possuía uma grande devoção a Eucaristia, a Santíssima Virgem - a quem consagrou sua companhia -, que tributava um culto muito especial a seu anjo da guarda, a mãe caridosa e boa que distribuía aos mais necessitados os remédios adquiridos para a comunidade, após uma enfermidade rápida, rodeada de suas filhas e pronunciando com doçura celestial os nomes de Jesus, Maria e José, entregou sua alma a Deus, em meio a veneração e ao amor de filhas que viviam nas quarenta casas do Instituto.
     A ignominiosa Revolução Francesa profanou seus veneráveis despojos, enterrando-os junto à ossada de um cavalo. Ao fim da Revolução, o zelo e o amor da Madre Duterrail conseguiram, ao restaurar as casas da França após trabalhos imensos, encontrar os restos venerandos da Fundadora.
     Transcorridos trezentos anos de espera, Joana de Lestonnac foi beatificada pelo Papa Leão XIII em 1900, e, no dia 15 de maio de 1949, canonizada por Pio XII.
     O lema da Santa, "ou trabalhar ou morrer pela maior glória de Deus", ainda hoje ressoa como o ideal a ser vivido por suas filhas nas cento e cinquentas casas da Companhia de Nossa Senhora.
 
Fontes: www.santiebeati.it - Domenico Agasso; Ciclo Santoral, Maria Angeles Viguri, ODN

Santa Jacinta de Marescotti, Padroeira de Viterbo - 30 de janeiro

      
     Clarice de Marescotti era filha de Marcantonio Marescotti e Otávia Orsini, Condessa de Vignanello, localidade próxima de Viterbo, Itália, onde nasceu provavelmente no dia 16 de março de 1585.
     De seus pais recebeu profunda formação religiosa. Entretanto, atingindo a adolescência, Clarice, nobre, bela, tornou-se vaidosa e mundana, buscando apenas divertir-se. Sua preocupação passou a ser vestidos, adornos, entretenimentos e um casamento digno de sua classe social.
     Seu pai se preocupava muito com a salvação da filha. Resolveu mandá-la para o convento onde já estava sua irmã mais velha, que lá era um exemplo de virtude. Clarice foi de má vontade, mas como terceira franciscana, pois alimentava o desejo de sair dele o mais rápido possível para voltar à vida de antes. Tanto insistiu que o pai acabou cedendo.
     Mas fora ela não encontrou o que esperava: nenhum casamento apareceu e Clarice viu ainda sua irmã mais nova, Hortência, casar-se com o marquês romano Paulo Capizucci e ela ficar para trás.
     Por insistência da família ela retornou àquele mesmo convento das religiosas da Ordem Terceira Franciscana regular, desta vez como freira, tomando o nome de Jacinta.
     Mas, julgando ela que as celas das freiras eram muito pequenas e pobres, mandou construir uma especial para si, de acordo com sua posição social. Sua cela parecia um bazar pelos luxuosos adornos. Aquilo poderia ficar bem num palácio, destoava do ambiente do convento. Sua piedade é tíbia; a mortificação prescrita, um tédio; até recebe as admoestações com desprezo. Por dez anos levou no convento uma vida mundana.
     Quando completou 30 anos, chegou a hora de Deus e surgiu potente a nobre e católica linhagem que levava dentro de si. Uma grave doença a faz refletir sobre o fogo do Purgatório e do Inferno; tremeu de terror e clamou pelo confessor.
     O Pe. Antônio Biochetti, virtuoso sacerdote, foi atender a doente. Mas, entrando naquele quarto luxuoso recusou-se atender a confissão da freira, dizendo que o Paraíso não era feito para os soberbos. Chorando perguntou-lhe: "Então não há mais salvação para mim?". "Sim — respondeu o religioso — contanto que deixe esses vãos adornos, essas vestimentas suntuosas, e se torne humilde, piedosa, esqueça o mundo e pense só nas coisas do Céu".
     Na manhã seguinte, após ter trocado sua roupa de seda por um pobre hábito, Jacinta fez sua confissão geral com um verdadeiro arrependimento. Depois, no refeitório, aplicou-se forte disciplina diante das irmãs e pediu-lhes perdão pelos maus exemplos que havia dado.
     Nova enfermidade fez com que a ruptura com a vida antiga fosse total. Entregou tudo o que possuía para a superiora e revestiu-se com a mortalha de uma freira que acabava de morrer. Fez o propósito de romper com tudo aquilo que lhe lembrava a antiga vida. Desde então passou a ser chamada de Jacinta de Santa Maria e não mais de Marescotti.
     Trocou sua cama por um feixe de lenha, tendo uma pedra como travesseiro; mortificava-se dia e noite, tomando tão ásperas disciplinas, que o solo de sua cela ficava manchado de sangue. Às sextas-feiras, em memória da sede que Nosso Senhor sofreu na Paixão, colocava um punhado de sal na boca. Sua alimentação passou a ser pão e água. Durante a Quaresma e o Advento, vivia de verduras e raízes apenas cozidas na água.
     Considerando-se como a pior pecadora, escolheu para patronos santos que tinham ofendido a Deus antes de se converterem, como Santo Agostinho, Santa Maria Egipcíaca e Santa Margarida de Cortona. Era devota do Arcanjo São Miguel, amava a contemplação da Paixão de Jesus Cristo, a Missa a levava às lágrimas, as imagens da Virgem Santíssima eram seu refúgio.
     Procurava toda ocasião para se humilhar. Às vezes ia ao refeitório com uma corda ao pescoço, ajoelhava-se diante das freiras, beijava-lhes os pés pedindo perdão pelos maus exemplos passados.
     Ela escreveu a uma religiosa: "Há 14 anos que eu mudei de vida. Durante esse tempo eu rezei algumas vezes quarenta horas seguidas, assisti todos os dias a várias missas, e me encontro ainda longe da perfeição. Quando poderei servir meu Deus como Ele merece? Reze por mim, minha amiga, para que o Senhor me dê ao menos a esperança".
     Embora se considerasse a mulher mais pecadora, a nomeiam subpriora e mestra de noviças. E a fama de suas virtudes propaga-se por toda a região. Deus recompensou sua fiel serva com dons extraordinários como o de profecia, milagres, conhecer os corações, ser instrumento de conversões e frequentes êxtases.
     A conversão de Francisco Pacini, célebre por seus desmandos, tornou-se famosa. Ouvindo falar dele, a Santa fez jejuns e orações por sua conversão. Convencido por um amigo convertido por Jacinta, Pacini vai ao convento falar com ela. No parlatório, diante daquela pobre freira, começou a tremer e à medida que ela falava, ele foi se transformando, caiu de joelhos e prometeu confessar-se.
     No domingo seguinte, o da Paixão, com os pés descalços e uma corda no pescoço, Pacini, no meio da Igreja pediu perdão a todos por seus crimes e escândalos. Mais tarde revestiu o hábito de peregrino e consagrou sua vida a Deus.
     Jacinta reformou muitos conventos com cartas escritas às superioras relaxadas, admoestando-as dos castigos que as ameaçavam. Por sugestão sua a Duquesa de Farnese e de Savella fundou dois mosteiros de clarissas, um em Farnese, outro em Roma.
     Ela se preocupava com as almas que se extraviavam no pecado e para sua recuperação fundou duas confrarias: a Companhia dos Sacconi, para atendimento material dos enfermos e para ajudá-los a morrer bem; e a Congregação dos Oblatos de Maria para incentivar a piedade, fazer obras de caridade e fomentar o apostolado dos leigos.
     Como não tinha voto de clausura, Jacinta ia visitar os pobres, levando-lhes sempre o auxílio espiritual, além do material. Em seu grande apreço pela nobreza dava assistência especialmente aos nobres empobrecidos e envergonhados.
     Santa Jacinta de Marescotti entregou sua bela alma a Deus em 30 de janeiro de 1640. Foi canonizada em 1807 pelo Papa Pio VII. É festejada no dia de seu nascimento para o Céu.
 
Fontes: Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo II, pp. 348 a 356 ; Manuel de Castro, O.F.M., Santa Jacinta de Marescotti, in Santoral Franciscano.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

20 de janeiro Nossa Senhora do Milagre


Orações e milagres medievais: 

Nossa Senhora do Milagre: aparição e conversão do hebreu Ratisbonne

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Pequeno Rei: O Menino Jesus de Praga – Festa em 14 de janeiro

Devoção ao Menino Jesus
     Pouco depois da fundação da Igreja, muitos santos, notadamente o Papa São Leão, o Grande, já haviam falado sobre o Menino Jesus e seu nascimento. Mas a devoção ao Menino Jesus realmente começou a florescer na Idade Média, graças ao ardor de vários santos.
     São Francisco de Assis ficou comovido ao meditar sobre o fato de que Deus se tornou uma criança e foi colocado em uma manjedoura. Foi ele quem montou o primeiro presépio da história para representar esse mistério divino.
     Santo Antônio de Pádua, seguindo o exemplo de seu fundador e mestre, também se maravilhava com o Deus Infante, e frequentemente recebia o privilégio de segurá-lo em seus braços, sendo assim que São Antônio geralmente é retratado.
     Outros santos também receberam esse favor inefável.
     Foi na Espanha, no século XVI, o "Século de Ouro", que o Menino Jesus começou a ser representado em pé, em vez de deitado em uma manjedora ou nos braços de Nossa Senhora.
     A grande Santa Teresa de Ávila introduziu essa devoção em seus conventos. A partir daí, ela se espalhou por toda a Espanha e pelo mundo. Seu discípulo e cofundador do ramo reformado da Ordem Carmelita, o grande São João da Cruz, nutria tanto entusiasmo pelo mistério do Deus feito homem que frequentemente carregava a imagem do Menino Jesus em procissão durante a temporada natalina e compunha poemas comoventes sobre a Natividade. Muitas invocações ao Menino Jesus começaram então a circular nas casas carmelitas, como "o Pequeno Peregrino", "o Fundador" e "o Salvador."
     A devoção ao Menino Jesus não se limitava ao claustro. Por exemplo, Fernando de Magalhães trouxe consigo uma imagem do Menino Jesus quando descobriu as Filipinas. Essa mesma estátua é venerada até hoje na ilha filipina de Cebu.
     No entanto, caberia a uma filha de Santa Teresa ser tanto uma propagadora da devoção ao Menino Jesus quanto sua confidente.
     A Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento (1619-1648) foi carmelita no convento Rei da Glória em Beaune, França, tendo ingressado no convento como interna quando tinha onze anos. Ela desfrutava de grande familiaridade com os anjos e santos e do privilégio de participar dos grandes mistérios da vida de Nosso Salvador. Sua missão especial era venerar e propagar a devoção à infância de Cristo. Enquanto orava diante de Sua imagem em seu convento, o Deus Menino lhe falou: "Escolho honrá-la e tornar visível em você Minha infância e inocência enquanto jazia na manjedoura". Ela recebeu muitas graças extraordinárias pelas quais o Menino Jesus lhe deu uma compreensão mais profunda desse mistério.
     Entre seus outros trabalhos apostólicos, a Irmã Margarida fundou a "Família do Menino Jesus", convidando todos a celebrar fervorosamente o vigésimo quinto dia de cada mês em memória da Santa Natividade e a rezar a "Pequena Coroa do Menino Jesus" — três Nossos Padres e doze Ave Marias — em honra aos primeiros doze anos da vida do Senhor.
     Séculos depois, outra carmelita, Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, honrou o Menino Jesus de forma especial, não apenas escolhendo esse nome na religião, mas também iniciando o caminho da "Infância Espiritual". Foi, segundo ela, na noite de Natal de 1886 que recebeu a maior graça de sua vida, a graça de abandonar a imaturidade infantil e entrar no grande caminho dos santos. Ela se entregou ao Menino Jesus com toda docilidade, como uma bola nas mãos de uma criança. Quando recebeu a responsabilidade de vestir a pequena imagem do Menino Jesus do convento, fez isso com verdadeira devoção. Ela também desfrutava de longos colóquios com a imagem do Infante de Praga no coro do noviciado.
O Menino Jesus de Praga
     Praga é justamente considerada uma das capitais mais belas da Europa. Aqueles que a visitam nunca se cansam de passear por suas ruas, sempre descobrindo novas características e maravilhas inesperadas. Sua topografia contribui muito para sua beleza, e o rio Moldávia, que divide a cidade, é quase lendário. Seus vários períodos históricos se refletem em sua arquitetura, desde fundações românicas até belos exemplos de arquitetura gótica religiosa e cívica, edifícios do Renascimento, Barroco e Clássico, até um exemplo de "arte" moderna, uma concessão ao espírito da época.
     Entre os inúmeros edifícios dignos de interesse nesta cidade privilegiada está a igreja de Nossa Senhora da Vitória, o primeiro santuário barroco do local, construído entre 1613 e 1644. Pertencente aos Carmelitas Descalços, abriga a grande maravilha de Praga, a encantadora estátua do "Pequeno Rei", como é conhecido o Infante de Praga.
Como Começou a Devoção
     O venerável Irmão Dominic de Jesus Maria, prior-general dos Carmelitas Descalços, destacou-se ao exortar os exércitos católicos na vitória do imperador sobre o Eleitor Palatino, o calvinista Frederico V, na sangrenta Guerra dos Trinta Anos. Em 1624, como gesto de gratidão, o imperador Fernando II convocou os carmelitas a Praga e lhes deu uma igreja que foi renomeada Santa Maria da Vitória em reconhecimento à ajuda de Nossa Senhora durante a batalha.
     Em 1628, o Irmão João Luís da Assunção, prior dos Carmelitas da cidade, comunicou aos seus religiosos uma inspiração que sentia para que eles deveriam venerar o Menino Jesus de maneira especial. Ele assegurou que, se isso fosse feito, o Menino Jesus protegeria a comunidade e os noviços aprenderiam com Ele como ser "como crianças pequenas" para entrar no reino dos céus. 
    
Quase simultaneamente, a Providência inspirou a princesa Polyxena de Lobkovice, viúva que se retirava ao castelo de Roudnice, a doar ao mosteiro uma estátua do Menino Jesus coberta de cera. Ele foi representado em pé, vestido com trajes reais, segurando um globo na mão esquerda enquanto dava uma bênção com a direita. A estátua havia sido presente de casamento para sua mãe, Maria Manriques de Lara, quando ela se casou com Vratislav de Pernstyn, e ela, por sua vez, a doou à filha como presente de casamento.
     Ao apresentar a estátua ao prior, a princesa Polyxena lhe disse: "Eu te ofereço, querido pai, o que mais amo neste mundo. Honre este Menino Jesus e tenha certeza de que, enquanto o venerar, não lhe faltará nada".
     O Irmão João Luís agradeceu a ela por esse presente que milagrosamente havia vindo realizar seu desejo e ordenou que fosse colocado no altar do oratório dos noviços. Lá, os frades carmelitas se reuniam todos os dias para louvar o Divino Infante e recomendar suas necessidades a Ele.
    Com o tempo, após um período inicial de prosperidade em Praga, os frades foram quase reduzidos à miséria. O prior e seus súditos recorreram ao Menino Jesus, e sua oração logo foi atendida. O imperador Fernando II, rei da Boêmia e da Hungria, conhecendo as dificuldades da comunidade carmelita, concedeu-lhes uma anuidade de mil florins, além de assistência da renda imperial.
     Pouco depois, outro evento extraordinário ocorreu que oferece uma medida da assistência infalível do Infante de Praga àqueles que se voltam para Ele. Havia uma videira no jardim do convento que há muito estava árida. De repente, de maneira totalmente inesperada, começou a florescer e dar os frutos mais doces e esplêndidos que se poderia imaginar.
O Apóstolo do Menino Jesus
     Neste convento havia um jovem padre, Frei Cirilo da Mãe de Deus, que havia deixado o ramo relaxado da ordem carmelita para abraçar a reforma de Santa Teresa. Em vez de encontrar a paz que tanto esperava, porém, sentia-se um reprovado sofrendo as dores do Inferno. Nada o consolava ou apaziguava.
     O prior, vendo-o taciturno e deprimido, perguntou o que havia de errado. O Frei Cirilo abriu seu coração e lhe contou todas as suas dores. "Com a aproximação do Natal", sugeriu o prior, "por que não se ajoelhar aos pés do Santo Menino e confiar a Ele todos os seus sofrimentos? Você verá como Ele vai te ajudar".
     Obedecendo ao prior, Frei Cirilo foi até a imagem do Menino Jesus. "Querida Criança, contemple minhas lágrimas! Estou aos Teus pés; tenha pena de mim!" Naquele exato momento, ele sentiu como se um feixe de luz tivesse penetrado sua alma, dissipando toda sua angústia, dúvidas e sofrimentos. Comovido e extremamente grato, o Frei Cirilo decidiu tornar-se um verdadeiro apóstolo do Divino Infante.
Sitiados por Hereges
     Enquanto isso, os protestantes se reagruparam e, em novembro de 1631, sob o comando do Príncipe Eleitor da Saxônia, sitiaram Praga novamente. O pânico tomou conta das tropas imperiais, e muitos dos angustiados habitantes da cidade fugiram.
     O frade João Maria prudentemente enviou seus frades para Munique, permanecendo com apenas um frade para cuidar do convento.
     Praga se rendeu. Os soldados protestantes invadiram igrejas e conventos, profanando e destruindo os objetos de culto católico. Eles prenderam os dois carmelitas e começaram a saquear o convento. Ao ver a estátua do Menino Jesus no oratório do noviciado, começaram a ridicularizá-la. Um dos soldados, querendo impressionar os outros, cortou as mãozinhas da imagem com sua espada e então lançou a imagem entre os escombros aos quais o altar havia sido reduzido. Lá permaneceu o Menino Jesus, esquecido por muitos anos.
     Quando uma trégua foi assinada em 1634, os carmelitas puderam retornar ao convento. O Frei Cirilo não retornou nesse momento, e ninguém mais se lembrava da imagem do Menino Jesus. Quando o Frei Cirilo finalmente retornou três anos depois, rapidamente percebeu sua ausência. Ele procurou pela preciosa estátua, mas em vão.
     Infelizmente, a paz não durou. Os suíços, quebrando os acordos, novamente sitiaram Praga, queimando castelos e vilarejos à medida que chegavam. O prior aconselhou seus frades a rezar, vendo que somente a oração poderia salvá-los desta vez. O Frei Cirilo sugeriu que se recomendassem ao Pequeno Rei, e ele renovou sua busca pela imagem. Depois de muito esforço, encontrou-o, empoeirado e sujo, e alegremente o levou até o prior. Os frades rezaram fervorosamente diante da imagem sem mãos pela salvação da cidade. Suas orações foram ouvidas; os suíços levantaram o cerco.
     Quando a imagem foi recém-entronizada no oratório do noviciado, os benfeitores do convento, que haviam desaparecido nos anos em que a imagem estava desaparecida, retornaram e renovaram sua ajuda.
     Apesar de seu fervor, o Frei Cirilo não percebeu que as mãos do Menino Jesus estavam ausentes. Um dia, enquanto orava diante do Infante em nome da comunidade, a estátua lhe disse tristemente: "Tenha piedade de mim e eu terei piedade de você. Devolva minhas mãos que os hereges cortaram. Quanto mais você me honrar, mais eu te favorecerei".
     Frei Cirilo imediatamente correu até o prior para contar o que havia acontecido. O prior parecia não acreditar e, devido à privação que o convento sofria, disse que era necessário esperar dias melhores antes de fazer a restauração, pois havia necessidades mais urgentes.
     Circunstâncias favoráveis surgiram quando um novo prior foi eleito pouco depois. Frei Cirilo renovou seu pedido, ao que o prior respondeu: "Se a Criança primeiro nos der Sua bênção, mandarei reparar a estátua". Logo houve uma batida na porta, e uma senhora desconhecida entregou ao Frei Cirilo uma generosa doação. No entanto, o prior lhe concedeu apenas meio florim para a restauração, dizendo que isso deveria ser suficiente. Esse valor insignificante logo foi aumentado por uma generosa doação de Daniel Wolf, um funcionário da corte que havia recebido um favor do Menino Jesus.
     Finalmente, a pequena estátua foi restaurada. Ele foi então colocado em uma urna de cristal próxima à sacristia, atendendo assim ao desejo expresso de Nossa Senhora de que o Menino fosse exposto para veneração pública.
Uma Cura Milagrosa e o Crescimento da Devoção
     Outro evento inesperado influenciou profundamente a devoção ao Pequeno Rei. Um dia de 1639, o Frei Cirilo, já considerado santo por muitos, foi procurado por Henrique Liebsteinski, Conde de Kolowrat, cuja esposa estava gravemente doente. O conde pediu aos frades carmelitas que levassem a estátua ao leito da mulher doente, prima da princesa Polyxena, que havia dado a estátua ao convento. Como vários médicos já consideravam seu caso perdido, sua única esperança restante era a Criança Sagrada.
    O Frei Cirilo não pôde deixar de responder a um pedido tão justo. Quando chegou ao lado da cama da mulher moribunda, seu marido lhe disse: "Minha querida, abra os olhos. Veja, o Menino Jesus está aqui para te curar". Com muito esforço, a mulher doente abriu os olhos e seu rosto se iluminou. "Oh!" ela exclamou, "a Criança está aqui no meu quarto!" Ela levantou os braços em direção à estátua para beijá-la. Ao ver isso, seu marido exclamou jubiloso: "Um milagre! Um milagre! Minha esposa está curada!"
     Mal havia sido restaurada à saúde quando a condessa foi ao convento e ofereceu à Criança uma coroa de ouro e outros objetos preciosos em agradecimento. Este é um dos milagres mais celebrados atribuídos ao Pequeno Rei.
     O conhecimento desse prodígio logo se espalhou além da corte, alcançando o povo da cidade e da região ao redor. Um número cada vez maior de peregrinos de todos os lugares começou a vir para ver o Menino Jesus. Tal era sua fama que uma dama rica da corte, movida por zelo imprudente, fugiu com a estátua. Deus puniu esse sacrilégio, porém, e o Pequeno Rei foi devolvido aos carmelitas.
     Com os fiéis oferecendo muitas oferendas monetárias e outras em agradecimento pelas graças recebidas do Divino Infante, finalmente foi possível construir uma capela especificamente para a estátua milagrosa.
     O arcebispo de Praga, Ernst Cardeal Adalbert von Harrach, foi convidado para a solene consagração em 1648. Ele concedeu aos frades a generosa faculdade de celebrar a Missa na capela do Santo Menino.
     Essa solene confirmação episcopal transformou a capela do Pequeno Rei da Paz em um local oficial de devoção, e ela foi amplamente visitada.
     Em 1648, durante outra batalha da Guerra dos Trinta Anos, tropas protestantes suíças invadiram a cidade mais uma vez. Desta vez, transformaram o convento carmelita em um hospital de campanha, mas nenhum dos 160 soldados feridos tratados ali ousou ridicularizar o Santo Menino. Pelo contrário, durante uma inspeção, o comandante dos invasores, General Königsmark, prostrou-se diante da estátua milagrosa e disse: "Ó Menino Jesus! Não sou católico, mas também acredito na Tua infância, e fico impressionado ao ver a fé do povo e os milagres que Tu fazes em seu favor. Prometo que, na medida do possível, encerrarei o alojamento do convento". E ele deu aos frades uma doação de trinta ducados.
     Pouco depois, a ocupação suíça de Praga terminou, e todos atribuíram o retorno da paz ao Pequeno Rei.
     Com o retorno da normalidade, o Superior Geral dos Padres Carmelitas, Frei Francisco do Santíssimo Sacramento, chegou a Praga em 1651. Ele aprovou a devoção ao Menino Divino e recomendou que os frades a espalhassem para as casas carmelitas na Áustria e entre os fiéis. Em reconhecimento à legitimidade da devoção à sagrada estátua, mandou afixar uma carta na porta da capela do Menino Jesus.
     Em 1655, graças a uma contribuição do Barão de Tallembert, a imagem milagrosa foi colocada sobre um magnífico altar na igreja de Nossa Senhora da Vitória e solenemente coroada pelo arcebispo Joseph von Corti de Praga.
     Até hoje, um memorial solene dessa coroação é celebrado no Dia da Ascensão.
     A devoção ao Infante Divino continuou a se espalhar por todos os níveis sociais. Em 1743, a grande imperatriz Maria Teresa da Áustria aspirava fazer uma peça rica para o Pequeno Rei com suas próprias mãos.
     Em 1744, tropas protestantes, desta vez prussianas, cercaram novamente Praga.
     As autoridades da cidade correram até o convento carmelita para pedir ao prior que carregasse o Pequeno Rei em procissão solene por toda a cidade, a fim de libertá-la do ataque dos hereges.
     Uma rendição honrosa, sem batalhas, foi alcançada; alguns meses depois, os prussianos deixaram Praga, e os moradores da cidade correram até Nossa Senhora da Vitória para agradecer ao Menino Jesus por mais uma graça.
     Pouco tempo depois, outro perigo ainda maior ameaçava a devoção ao Infante Divino. Em 1784, o imperador José II, desdenhoso da vida monástica e especialmente da vida contemplativa, suprimiu o convento carmelita, como fez com muitos outros, e doou a igreja de Nossa Senhora da Vitória à Ordem de Malta.
     Sem a contínua dedicação dos carmelitas, a devoção ao Menino Jesus diminuiu.
     No século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas ocuparam Praga, após o que o flagelo do comunismo caiu sobre o país por quase 50 anos. Nem um nem outro inimigo da fé de Cristo, no entanto, tentou atacar a estátua milagrosa em si, que permaneceu em seu trono na igreja de Nossa Senhora da Vitória.
Os comunistas proíbem a devoção em Praga  
   
O regime comunista na capital da Tchecoslováquia proibiu o livre exercício da devoção, pois propagavam o ateísmo estatal. Na "Primavera de Praga" de 1968, uma tentativa do povo tchecoslovaco de se libertar do regime ímpio foi sufocante de forma sangrenta.
     A devoção ao Menino Jesus continuou restrita à igreja onde a estátua estava exposta. Os frades carmelitas, expulsos de Praga, continuaram seu apostolado fazendo gravuras do Santo Menino e enviando-as clandestinamente para outros conventos europeus.
     Finalmente, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, a ditadura comunista na Tchecoslováquia caiu e o país foi dividido em Eslováquia e República Tcheca. As liberdades religiosas e civis foram restabelecidas na República Tcheca, e o novo arcebispo de Praga, que também havia sido vítima da repressão comunista, decidiu dar um novo impulso à devoção ao Menino Jesus. A seu convite, dois frades carmelitas foram a Praga para reabrir o convento e estimular a devoção ao Menino Jesus Divino.
     A devoção ao Menino Jesus já havia se estendido de Praga ao restante da Europa. De lá, espalhou-se para a América Latina, Índia e outros lugares. Nos Estados Unidos, a devoção deve muito àquela grande apóstola dos imigrantes, Santa Francisca Xavier Cabrini, que queria uma estátua do Pequeno Rei em cada casa do instituto que fundou.
     Padre Cirilo da Mãe de Deus morreu em odor de santidade em 1675.
 
Autor: Plinio Maria Solimeo
O autor deve à excelente obra El Pequeno Rey, de Sorella Giovann della Croce, C.S.C.
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Santa Maria Maravilhas de Jesus, Fundadora - 11 de dezembro

     Maravilhas Pidal y Chico de Guzmán, este era o seu nome de leiga, nasceu em Madrid no dia 4 de novembro de 1891 em uma família profundamente cristã; o pai, Luis Pidal y Mon, segundo Marquês de Pidal, naquele tempo era embaixador da Espanha junto à Santa Sé.
     Sentiu o chamado à vida religiosa desde criança, e com esta finalidade Maravilhas pôs em prática todas as virtudes cristãs, que foram coroadas com sua entrada no mosteiro das Carmelitas Descalças de El Escorial (Madrid), em 1919, onde pronunciou os votos em 7 de maio de 1921.   
     Nos primeiros anos de sua vida religiosa no mosteiro realizou o seu ardente desejo de uma vida humilde e escondida.
     Em 1923, quando ainda era professa de votos temporários, se sentiu inspirada pelo Senhor, em diversas ocasiões, a fundar um mosteiro carmelita no Cerro de los Angeles, local onde o Rei Afonso XIII havia inaugurado, em 1919, um monumento ao Sagrado Coração de Jesus e feito a consagração da Espanha àquele Coração Sagrado.
     Em 19 de maio de 1924, ela deixou o Escorial, transferindo-se com três religiosas e, por obediência aos superiores, fundou o mosteiro em Getafe, território atualmente da Arquidiocese de Madrid.
     Nomeada primeira priora da nova comunidade pelo Bispo de Madrid, em 31 de outubro de 1926, dirigiu o mosteiro, inaugurado próximo do monumento ao Cristo Rei, com fortaleza e doçura, instaurando uma fidelidade teresiana total com um grande espírito apostólico, um senso profundo do ideal contemplativo.
     Embora respeitando a clausura, viveu a sua vida de contemplativa interessada nas necessidades dos menos favorecidos; por outro lado, seu amor pela Cruz era tão grande, que chegava ao heroísmo: por penitência, durante 35 anos dormiu apenas três horas por noite, vestida e sentada no chão com a cabeça apoiada no leito.
     Em 1933, oito das suas Irmãs fundaram um mosteiro de clausura em Kottayam na Índia, onde ela também deveria ir, mas foi impedida pelos superiores.
     Por causa da revolução espanhola que ensanguentou a Espanha com a perseguição e o ódio contra tudo que se relacionasse com a religião, Madre Maria Maravilhas de Jesus foi obrigada a deixar o mosteiro com todas as suas religiosas em 22 de julho de 1936.
     Acolhidas primeiramente pelas Ursolinas francesas de Getafe, em agosto seguinte se fixou em uma casa de Madrid e depois atravessou Valencia, Barcelona, Port-Bou, Lourdes, retornando em outra parte da Espanha, estabelecendo-se em uma antiga ermida da Ordem do Carmo em Las Batuecas (Salamanca).
     Em maio de 1939, o mosteiro de Cerro de los Angeles foi reaberto e dali partiram as Irmãs dirigidas por ela, que graças ao maravilhoso florescimento de vocações carmelitas puderam abrir várias Casas: Mancera (1944), Duruelo (Ávila) em 1947, Cabrera (1950), Arenas de San Pedro (1954), Córdoba (1956), Aravaca - Madrid (1958), La Aldehuela (1961), Málaga (1964); finalmente, em 1966, restaurou e desenvolveu o mosteiro da Encarnação de Ávila e a casa de Santa Teresa.
Maravilhas jovem
     Graças às numerosas vocações atraídas por sua personalidade forte, pode mandar três Irmãs para o mosteiro de Cuenca (Equador), em 1954, o qual necessitava de reforços. Fez construir um convento e igreja para os Carmelitas Descalços na província de Toledo
     Chamavam-na “a Santa Teresa de Jesus do século XX”.
     Retirou-se no convento de La Aldehuela (Madrid), em 1961, vivendo em grande pobreza, de onde dirigia o movimento e a vida regular de tantos mosteiros com a sua palavra materna e o seu exemplo.
     Em 1967, em Ventorro, promoveu a fundação de colégios para crianças privadas de escola; em 1969 conseguiu 16 casas pré-fabricadas para famílias pobres.
     Em 1972 a Santa Sé aprovou a Associação de Santa Teresa, constituída por ela para os seus mosteiros, associação esta empenhada em iniciativas sociais, da qual foi eleita presidente.
     Entre 1972 e 1974, ajudou na construção de 200 habitações, com a Igreja e as obras sociais em Perales del Rio, colaborando com o pároco local. Com a bondade daqueles que confiavam nela e na sua obra, ajudou a construção da nova clínica para religiosas e monjas em Pozuelo di Alarcón (Madrid).
     Foi atingida por uma pulmonite na Sexta-Feira Santa de 1967 e desde então foi se debilitando, mas não abandonava a fidelidade à Regra e às Constituições. Morreu santamente depois de breve enfermidade no dia 11 de dezembro de 1974, no mosteiro da Aldehuela (Madrid).
     Mulher notabilíssima por suas virtudes e por suas capacidades humanas, com seu espírito de oração contemplativa, com o desejo de ajudar a Igreja e com o anelo de salvar as almas, Madre Maravilhas deixou um traço indelével que a tornaram fidelíssima à sua vocação e autora corajosa de obras para a glória de Deus.
     A sua espiritualidade se exprimia na oração contínua, na sua pobreza excepcional e na de seus mosteiros, na vida austera sustentada pelo trabalho que permitia manter-se e ajudar as grandes iniciativas sociais e beneficentes da Igreja, que ainda falam dela.
     Os seus despojos repousam na paupérrima capela do mosteiro de La Aldehuela. A causa para sua canonização foi introduzida em 19 de junho de 1980; foi beatificada por João Paulo II em 10 de maio de 1998 na Praça de São Pedro, em Roma.  Em 4 de maio de 2003, o mesmo pontífice a canonizou em Madrid, com a participação de uma enorme multidão.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

São Nicolau de Mira, 6 de dezembro

  
Santa Klaus na
era vitoriana

Como São Nicolau evoluiu para o Papai Noel e por quê?
     Quatro artistas, trabalhando com histórias passadas de geração em geração, são responsáveis pelo Papai Noel que hoje conhecemos como o "espírito de generosidade e amor." A outra razão pela qual temos o Papai Noel e não São Nicolau é devido ao ódio protestante contra os dias de Santo católicos.
     A transformação de São Nicolau em Papai Noel ou Papai Janeiro ocorreu primeiro na Alemanha, depois em países onde as Igrejas Reformadas eram maioria, e finalmente na França, com a festa sendo celebrada no Natal ou no Dia de Ano Novo. Colonos protestantes holandeses em Nova Amsterdã (Nova York) substituíram São Nicolau (Sinter Claes) pelo benevolente mágico que ficou conhecido como Papai Noel.
     Em 1517, ocorreu a Reforma Protestante. Protestantes não acreditam em santos. No entanto, São Nicolau era tão amado por todos que as pessoas mantiveram sua memória de generosidade e amor, mas acabaram com a influência católica criando novos personagens baseados nele, como o Papai Noel ou Pére Noël.
     Na lenda holandesa, Sinta Claes e seu elfo original, Pedro Negro, um pequeno mouro, deixam a Espanha em seu barco a remo no dia de São Nicolau, 6 de dezembro, e seguem para Amsterdã. Depois de pousar na véspera de Natal com presentes, ele pergunta aos pais se seus filhos foram bons ou ruins. Se foram bons, os presentes iam para eles; se foram ruins, recebiam pedaços de carvão. Quando colonos holandeses, predominantemente protestantes, chegaram a Nova Amsterdã (Nova York) no século XVII, levaram consigo sua versão de "São Nicolau". Com algumas modificações e por má pronúncia de São Nicolau, seu nome foi alterado para Sinta Claes e Pedro Negro foi retirado.
     Em 1820, o primeiro de quatro artistas, Washington Irving, um escritor muito popular de sua época, escreveu um livro de sátira política que falava muito sobre a Sinta Claes, ou Papai Noel. Nela, ele fez Sinta Claes sem burro ou cavalo branco e o colocou em uma carroça puxada por cavalos que voava sobre telhados, jogando presentes pelas chaminés de boas crianças. O Papai Noel de Irving era um sujeito alegre, com um chapéu largo e calças largas. A roupa e o meio de transporte do Papai Noel não duraram muito.
Sinta Cçaes e Pedro Negro
     Em 1823, o segundo artista, um professor chamado Dr. Clement Clarke Moore, presenteou sua família com um poema sobre o Papai Noel para divertir seus netos. O poema era Uma Visita de São Nicolau, que começava assim: "Era a noite antes do Natal..." O poema rapidamente se tornou popular em todo os Estados Unidos. O poema de Clement Moore usou a descrição do Papai Noel no livro de Washington Irving, mas ele adicionou novos detalhes. Ele o transformou em alegre São Nicolau, um elfo rechonchudo e despreocupado que conseguia se espremer por uma ou duas chaminés, com um trenó cheio de brinquedos, oito renas voadoras, e ele mudou sua casa da região do Mediterrâneo para o Polo Norte.
     Papai Noel frequentemente era mostrado vestido com roupas verdes, ou azuis ou pretas. Quando uma das filhas de Clement Moore fez uma versão caligrafada do famoso poema do pai como presente de Natal para o marido, apesar das palavras do pai, ela vestiu o Papai Noel com um longo casaco verde. Papai Noel permaneceu um elfo até a década de 1860. Foi aí que ele engordou de novo. Em 1882, o terceiro artista, Thomas Nast, desenhou quem ele achava que Clement Moore estava descrevendo. Foi publicado em um jornal chamado Harper's Weekly.
     Thomas Nast, ilustrador da revista Harper's, retratou um Papai Noel redondo. Ele também desenhou o mapa do Papai Noel, dando ao Papai Noel uma oficina e um lar no Polo Norte. Ele também fez com que esse Papai Noel tivesse uma lista mundial de crianças boas e más. Essa versão do Papai Noel durou até a década de 1920, quando a publicidade entrou em cena.
     O último artista, Haddom Sundblom, trabalhou para a Coca-Cola Company e desenhou seus cartazes e anúncios. Haddom Sundblom decidiu que o Papai Noel vestia vermelho e não era realmente um elfo. Ele também fez o Papai Noel beber uma Coca-Cola. Esse Papai Noel foi feito no início dos anos trinta. O Papai Noel de veludo vermelho, que Haddom Sundblom projetou para publicidade há 80 anos, é como a maioria das pessoas pensam sobre o Papai Noel hoje.
     Em 1939, o Papai Noel pegou a nona rena, Rudolph; essa rena-de-nariz-vermelha foi criada por um redator de publicidade da Montgomery Ward.
 
por Jenifer Segerstrom
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Contos sobre Honra, Cavalaria e o Mundo da Nobreza — nº 554
Como São Nicolau evoluiu para o Papai Noel e por quê? - Nobreza e Elites Tradicionais Análogas
 
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São Nicolau de Mira, o padroeiro dos marinheiros 

     São Nicolau de Mira nasceu no ano 275 em Pátara, cidade marítima da Lícia, na Turquia meridional. Seus pais eram ricos e possuíam uma profunda vida de oração. Ainda muito jovem, tornou-se órfão. Recordando a passagem do “Jovem rico”, Nicolau, ao receber por herança uma grande quantia de dinheiro, livremente doou aos necessitados e pobres.
     Educado no cristianismo, tornou-se sacerdote da diocese de Mira, onde, com amor, evangelizou os pagãos, mesmo no clima de perseguição que os cristãos viviam.
     Certa vez, ficou sabendo que um homem havia perdido todo o seu dinheiro. Ele tinha três filhas, as quais tinham idade suficiente para o casamento, mas não tinham os dotes para a celebração. Por isso, as filhas do pobre homem seriam vendidas como escravas, pois não poderiam viver na casa por mais tempo.
     Na noite antes da partida da filha mais velha que seria vendida, ela lavou suas meias e as colocou em frente ao fogo para que secassem. Na manhã seguinte, a jovem viu que havia, dentro de sua meia, uma bolsinha com ouro. s países do Norte da Europa, usando da fantasia, viram em Nicolau o velho de barbas brancas que levava presentes às crianças no mês de dezembro.
     Com a morte do bispo de Mira, Nicolau foi eleito seu sucessor. A obediência fez com que Nicolau abandonasse a solidão para assumir as responsabilidades de bispo. Conquistou a todos com sua caridade, zelo, espírito de oração e carisma de milagres em favor, sobretudo, dos enfermos.
     Historiadores relatam que ao ser preso por causa da perseguição dos cristãos, Nicolau foi torturado e condenado à morte, mas, felizmente, salvou-se em 325, pois foi publicado o edito de Milão que concedia a liberdade religiosa.
     São Nicolau de Mira participou do Concílio de Niceia, onde, contra a heresia ariana, foi definida a divindade de Jesus, declarado consubstancial ao Pai. Nicolau presenciou uma cena indescritível: Constantino Magno, um grande perseguidor do povo cristão, ajoelhou-se para beijar as cicatrizes de Nicolau e de outros cristãos torturados na última perseguição.
     São Nicolau de Mira faleceu em 343, na cidade de Mira, com fama de santidade e de instrumento de Deus para que muitos milagres chegassem ao povo. Após sua morte, seu túmulo em Mira se tornou um local de peregrinação. 
     As relíquias de São Nicolau de Mira foram consideradas milagrosas devido a um misterioso líquido que saía dele, chamado “maná de São Nicolau”. São Nicolau de Mira é invocado contra os perigos de incêndios e é padroeiro dos marinheiros.
 
São Nicolau: a história do bispo que inspirou Papai Noel - BBC News Brasil

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Santa Crispina, Mártir de Tebaste - 5 de dezembro

     Etimologicamente seu nome significa “de cabelo crespo”. Santa Crispina e seu martírio são comprovados por dois documentos de grande valor histórico. Um é a Passio, tirada das Atas oficiais do processo. O outro é um sermão de Santo Agostinho, conterrâneo da mártir, pronunciado no aniversário de sua morte.
     Crispina nasceu de rica e nobre família em Tebaste (ou Thagara, ou Thacora), cidade romana da Numídia, em Taoura, Argélia, norte da África. Ali vivia no final do século III e início do século IV, casada e mãe de vários filhos. Não possuía boa saúde; muito firme na Fé, era estimada carinhosamente pelos cristãos, que a procuravam pelos seus bons conselhos tanto em assuntos religiosos quanto naturais.
     A graça de Deus tocou seu coração. Resplandecia diante de todos por sua virtude e todos, já em vida, começaram a chamá-la a “santa". Os fiéis de Cristo Nosso Senhor a estimavam e respeitavam com carinho profundo. Era una boa conselheira em assuntos cristãos e humanos. As duas coisas vão intimamente unidas. As orientações que dava eram acertadas.
     Neste período eclodiu a décima perseguição do imperador romano Diocleciano aos cristãos. Sendo muito conhecida na região, Crispina foi uma das primeiras a serem presas e levada a Tebaste para julgamento pelo procônsul Gaius Annio Anullino. Diante dele, ela se negou a adorar os deuses pagãos: – "Você quer viver muito ou morrer entre as torturas como seus cúmplices?". [Os calendários dão os nomes de Júlio, Potamia, Felix, Grato e outros sete cristãos.]
     "Se eu quisesse morrer, eu não deveria fazer outra coisa que dar o meu consentimento aos demônios, deixando que a minha alma se perdesse no fogo eterno".
     Para humilhá-la, rasparam o seu cabelo, e Gaius a atormentou de várias formas, mas nem diante do choro dos seus próprios filhos ela negou a Deus. Humilhado, então, ficou Gaius, diante da valentia de Crispina, e irritado decretou-lhe a morte por decapitação de espada, diante do que a santa disse: "Louvado seja Deus que me olhou de cima e me tirou de suas mãos".
     No dia 5 de dezembro de 305, ela foi atingida no frágil pescoço pelo fio da espada, fora de Tebaste, em um lugar onde foi encontrada a antiquíssima memória sepulcral dedicada à Mártir. Neste local foi posteriormente construída uma Basílica.
     Os Atos de seu martírio, escritos não muito tempo depois do evento, formam um valioso documento histórico do período da perseguição. O dia da morte de Santa Crispina era celebrado na época de Santo Agostinho.
     Santo Agostinho comenta seu sacrifício brilhante: "Os perseguidores eram tão furiosamente contra Crispina, contra esta mulher rica e delicada, mas ela era forte, porque o Senhor era a sua proteção ... Esta mulher, irmãos, há alguém na África que não a conheça? Foi muito notável, de família nobre e muito rica, mas sua alma não cedeu: o corpo é que devia ser afetado".
     Em seu sermão, Santo Agostinho não hesita em comparar Crispina a Santa Inês, aproximando a jovem cândida e intacta como um cordeiro a uma mulher idosa, esposa e mãe. Agostinho também menciona a comunhão sublime e misteriosa que une os mortos aos vivos, os santos aos sofredores. "Estes Santos, - diz ele - não sofrem mais; estão aqui entre nós".
     O que era verdade para Santo Agostinho ainda é verdadeiro e reconfortante para nós. Vivamos no meio dos Santos, e o seu sacrifício vai nos ajudar.  
 
Fontes:
https://www.a12.com/
Fonte: https://www.liriocatolico.com.br/enciclopedia/palavra/santa_crispina/